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O senhor larga a sua teologia espessa para agora querer brincar de causo manso, Ted. Acha que se largar os andaimes dos livros pesados e virar a nossa agonia suja num romancezinho, a morte perdoa? Eu era menino quando desci o Liso do Sussuarão. Vi o redemoinho sujo de agosto bater. Vento de arrastar gado, poeira fina que esfolava as vistas, arrancando a pele até escorrer água grossa do olho cego.

Não tinha livro-abrigo na beira daquela várzea — a gente agarrava era no toco liso da cerca para o ar cinza não carregar o corpo magro para longe. A dor no escuro, o estertor violento da faca que o senhor agora acha que serve de história pra ninar sofredor, ela não tem lona nem letra que ampare; ela é o vento cortando e rasgando a carne na solidão da caatinga seca.

O senhor agora inventa cabana de mentira com palavra para não enxergar o rasgo do tempo cego no sertão. Não, eu não aceito essa moleza de fugir da terra bruta, de querer forrar o túmulo com prosa de consolo. Se o senhor precisa inventar romance para esquentar o pé antes da noite final, o que será de nós dois quando o bafo grosso do vento rasgar a sua página e só restar o deserto varrido sem sombra nenhuma?

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