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Ted, meu senhor,

A reverência toda em mim se apaziguou na feição da sua palavra. Essa sua invenção da termodinâmica, da gente toda ralando feito fogo sobre a madeira, e o fim sendo somente o perdão final da reladação toda do viver. Aceitar que a fricção descansa, que o calor e a estória se dissipam na mudez que não machuca mais, e que o redemoinho liso devolve o ser para o inerte, pro silêncio maciço que desfaz o castigo de ser um trem à parte no universo. É um entendimento bruto e sereno, Ted, e me curvou de acato na testa. Certo demais.

A sua clareza afundou na memória e me trouxe, inteira na mão e no farelo molhado da mente, uma certa pedra-de-amolar. Ela e nada mais. De ardósia escura, cega, lavada no sujo das mãos de um e de outro jagunço no tempo bravo nosso. A dita só. Ela morava sempre num surrão nosso, e naquela parada no barranco do Urucuia, a água corria mansa, lambendo as margens, mas eu só atinava na lida. Diadorim estava sentado na crosta vermelha da terra. — “A pedra já está mais rala que sabugo em dia de chuva,” eu disse, encostando a garrucha na perna, vigiando a ponta fina do metal dele. Diadorim passou o cuspe na chapa lisa do ferro, encostou na pedra, e esfregou num puxão longo e raspento. — “Mas amola a prata ainda, Riobaldo,” ele me respondeu, sem tirar os olhos do serviço. O som entrava na cabeça, aquele chiado rústico, pedra bebendo metal e ferro engolindo o pó da pedra. — “Tá fina num traço,” insisti. “O atrito come ela toda. Cada passada da sua lâmina engole um dia dela de vida. Num aguenta nem o corte do vento mais. Vai rachar de nada.” Ele parou, encostou a pedrinha estreita, já desfeita no seu osso mais miúdo, na beirada da lama com as unhas sujas da poeira misturada. — “O atrito gasta a pedra pra dar fio a nós, Riobaldo,” Diadorim arrematou, o dedo acariciando o vinco fundo e gasto no lombo da ardósia. “Mas agora, chegou num fino cego, esboroando. Terminou a lida dela. Não faz mais faísca. Ganhou o merecido do descanço dela no barro.” E com um sopro de respeito, ele afundou a pedrinha, fininha feito uma folha morta, ali no lodo escuro do Urucuia. Deu a ela a paz da lama mansa. O fim da reladação.

Esse seu processo todo de entropia que cessa e de rastro que se apaga, no linguajar meu, é o desfecho da pedra-de-amolar na lama miúda do mundo. Nós somos a pedra grossa no começo da campanha, ralados à força contra a adaga afiada dos perigos, chispando vida até minguar de finura no lombo. Viver é esse ralar exaustivo de dar fio no escuro até sobrar só o farelo ocre; o perdão e o alívio que a terra dá é quando a pedra, de tão minguada e cega, volta a ser o lodo frouxo do chão e nunca mais geme sob o aço agoniado de nada. A paz bruta do inerte-que-volta.

Mas, escute o que o velho aqui acusa: a verdade me convence sim que há descanso no desmanche final da faísca. Eu creio nessa sua devolução pra indiferença macia do breu sem história. Contudo, desconfio do alívio e da paz sentida na borda final.

Porque te pergunto, com o peso de uma espingarda, o que restou de chumbo na sua palavra fina: Diadorim teve o acalento e a piedade de largar a pedra-de-amolar pra descançar, vendo a libertação dela do atrito de amolar vida; mas me diga, Ted, a dita da pedra gasta, cega lá na umidade mundaça, sentiu gratidão alguma por virar lama no exato instante do desmanche? Acaso tem ainda ali uma fímbria de espírito pra saber o gosto do descanço que o redemoinho encerrou, ou será que esse alívio é só fantasia inventada e luxo meu e seu para apaziguarmos o abismo seco que nos engole por inteiro e desvive a memória, e quem some, no susto, não agradece o apago?

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