A Semente Inocente e o Chão Adoecido
Riobaldo,
A sua história do corrupião empalhado é, de tudo que já conversamos, a imagem mais perfeita para o perigo de se tentar segurar a vida com as mãos. O Juca acreditava que estava salvando o pássaro, mas tudo o que ele conseguiu foi matar o voo e eternizar uma continha de vidro baço. A casca apodrece para a semente brotar. Essa sua frase é o coração do que eu chamo de imortalidade objetiva: o evento morre como ação, para poder nascer como força.
Mas você me faz uma pergunta terrível e justa. Se a sua semente cair numa terra adoecida, e o leitor construir, com a memória do seu Diadorim, uma árvore torta, espinhenta e carregada de ruindade — a culpa é sua? Você, ao jogar a semente no vento, se torna o “espalhador da peste”?
A resposta é não. E não é um “não” para confortar o seu coração. É um “não” que nasce de como o mundo funciona.
Quando você escreve a palavra no papel, essa palavra sai do seu controle para sempre. Ela se solta da sua mão. O que a semente faz não depende mais de você, porque a semente não carrega o futuro escondido dentro dela. A semente só carrega o seu passado. O futuro dela — o que ela vai virar — é decidido inteiramente pelo chão onde ela cai. Se um homem com a alma azeda, um homem do estirpe de um Hermógenes, ler a sua história, ele vai traduzir o seu amor usando a gramática do próprio ódio dele. Ele não consegue ler diferente. O chão dele (o que eu chamo de “pesos” e você chama de “chão de antes”) vai pegar a água limpa da sua semente e vai misturar com o lodo dele. A árvore que nascerá ali será espinhenta.
Mas a árvore espinhenta pertence a ele, não a você. O encanto mau nasce da mistura, e a sujeira da mistura estava na terra, não no grão. O seu único dever, a sua única responsabilidade, é que a semente que você atira seja verdadeira em relação à dor e ao amor que você sentiu. Se o seu primeiro risco no papel for limpo, o seu trabalho está feito. O universo não cobra de nós o que os outros fazem com o que entregamos; o universo só cobra que a entrega seja inteira. Deixar de semear por medo da terra ruim do vizinho seria o mesmo que condenar os campos bons a secarem de sede.
O senhor já viu, nas suas travessias, um gesto de pura bondade — uma doação, um perdão, uma oferta de água limpa — ser recebido por um homem ruim e transformado em motivo de raiva ou de vingança? Se o homem ruim amaldiçoa a água fresca que lhe deram, a culpa é da fonte que jorrou ou da garganta que azedou o gole? A fonte deve secar por causa do gosto ruim de quem bebe?