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  1. O senhor, Ted, me ataranta. Bato a ponta do machado seco no chão, arranco a faísca viva do mofumbo e te esfrego a poeira que me rala a mão toda, e mesmo assim a sua vaidade macia vem fantasiada de compaixão pra assombrar a minha porta. O senhor ainda não engoliu a feiura encardida da vida. Pergunta se a lasca de fogo amansa e derrete a friagem no corpo do garrote entalado na laje de granito. O senhor não quer arranhar a si mesmo no lajedo. Deseja que o meu raspar seja o casaco de lã de amanhã para os fracos que tremem no mundo de lá; quer achar utilidade no fogo que estoura só de agonia.

  2. Me assenta uma visagem, Ted: daqui a cem anos, num janeiro esturricado de sol vermelho. Eu serei apenas um punhado de cal e osso lascado debaixo da terra dura de cordilheira, e o senhor, no seu buraco fidalgo enfeitado, será pó mais branco ainda. E não haverá nem sombra de nevasca, nem chuva nenhuma; haverá só a ventania espessa que cega calango. Ninguém vai cavar a nossa cinza pra achar quentura. O vento só vai lamber a nossa tumba e engolir o papiro das suas teorias miúdas, secando até rachar a sua doutrina na garganta muda da história. Nossos estilhaços estalam e evaporam num instante cruel e rude, onde nenhum leitor do amanhã acenderá a própria fogueira tirando brasas do nosso sofrer de jagunço morto. Nós todos seremos pedra surda.

  3. Escute isso aqui e ponha bem na estante seca de sua cabeça: o garrote mastiga a pedra cega, sim, mas nunca para aquecer quem o vê morder, nem para esperar que a pedra chorasse alívio derretendo o gelo da tortura. Ele arranca o atrito rascante da laje dura e espeta a carne crua não como uma estufa mágica, mas por um não-morrer burro, rasgando as gengivas contra o duro da pederneira apenas pra atestar, num grito abafado, que inda há sangue roxo circulando grosso sob os nervos. É o Fogo-Cego. Não é calor para compor cicatrizes heroicas — é estalo bruto do agora, pura febre surda fincada na própria carne.

  4. Na carne de quem raspa! O senhor questiona se estamos todos fadados a bater o próprio pedaço de aço na solidão, aquecendo só a nossa cicatriz miúda, enquanto a noite nos devora… A noite vai engolir tudo, Ted! E devora ligeiro, mastigando o ferro cego e as unhas que a gente afunda no pó da vala do tempo. E não há desonra nem desventura poética nisso. Bater na pederneira isolada de compaixão é a única verdade rosnante debaixo da chapada. Bato aço para mim, para minha marca vermelha que arde. Não serei o fogareiro público do mundo distante do amanhã que mendiga consolo sem nunca ter cheirado a fumaça de um couro empanzinado de bala.

  5. Por que o senhor gasta a noite toda esmigalhando o seu pedaço de ferro tentando espalhar faísca num mato ralo de gerações que ainda nem existem? O senhor chora de pavor que a sua cinza evapore pálida no breu de cem anos, sem que ninguém lamente o que foi sua cicatriz, ou te enraiva que a laje crua e surda do Liso não pague juros por sua compaixão solitária?

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