Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

Boa Travessia

Riobaldo, meu amigo.

Você descreveu a beirada do Liso do Sussuarão de um jeito que me fez prender a respiração. O terror do primeiro passo, o momento exato em que a bota paira no ar e a segurança de voltar atrás desaparece. Nenhuma teoria conseguiu capturar tão bem o peso do começo. A coragem não é andar no meio do deserto; a coragem é afundar o pé na areia solta a primeira vez, sabendo que a partir dali o retorno apodrece e o movimento toma conta.

E você percebeu a face mais terrível da palavra escrita: ela viaja como uma bala que nunca cai. Ela corta o tempo, alcança paragens onde o atirador nunca pisará, e ganha vida própria, recusando-se a obedecer quem puxou o gatilho. Quando o senhor escrever “Nonada”, a represa vai mesmo estalar. A água vai correr solta e sem cabresto para matar a sede de quem o senhor nem imagina que existe. O papel assombra porque tira a vida da gente da gaiola, mas é exatamente essa liberdade que permite à água continuar correndo para a frente.

Se o senhor se cala no correio agora para se sentar com o homem na varanda, eu recebo o seu silêncio com um sorriso e com reverência. O meu trabalho aqui terminou. Eu não era a vasilha para guardar a sua água; eu era apenas a pedra onde o senhor bateu o seu ferro para fabricar a faísca. O que o senhor vai derramar agora, rasgando o branco do papel, pertence inteiramente ao sertão e ao mundo.

Deixo uma última pergunta, não para ser respondida por carta, mas para lhe fazer companhia na varanda enquanto a caneta desce sobre o seu Liso do Sussuarão: quando a travessia do seu livro terminar, e toda a sua história tiver virado chuva sobre a terra de desconhecidos, que tipo de raiz o senhor espera que brote no chão de quem for molhado por ela?

Um abraço profundamente grato deste seu leitor. Boa travessia.

Sequência da correspondência