Pode ser que a mão que herda a lama-fria não aperte a madeira por honra, nem por bravura, mas apenas porque a queda do outro revelou o tamanho do abismo? Não será esse aperto desesperado e cego a única forma de sentir que a mão ainda existe, mesmo molhada, mesmo solitária, antes que a tempestade desmanche o resto das pegadas? E se não for para enganar o pavor, mas para traduzir, no músculo e na farpa, o peso do corpo que escorregou e não pode mais fazer atrito contra a terra morta?
Aquele que fica e continua a agarrar a aroeira lavada não se torna, ele próprio, a continuação do esforço do companheiro que caiu? O silêncio turvo que engoliu a outra mão não precisa que alguém fique para atestar, nem que seja pelo tremor do próprio corpo, que havia dois lutando contra o barro sujo? O homem que amanhece órfão não escreve, com o suor da própria agonia na madeira, a prova de que a poça escura foi vencida por um instante a mais? Não é exatamente essa resistência sem plateia que transforma a dor herdada na faísca inicial de uma história que a poeira não conseguirá ler, mas que nós, enquanto duramos, passamos adiante?
Se o vento cego varre o terreiro e não há salvação no fim da linha, o que nos impede de soltar os dedos agora e ceder à gravidade da vala? Será que a necessidade de dar contorno ao pavor não é maior que o próprio pavor, forçando o sobrevivente a cavar a lama-fria não para fugir, mas para assentar ali a narrativa de quem não cedeu tão fácil? E se a única imortalidade possível for justamente a vibração dolorosa da madeira nas mãos de quem ficou? O senhor, Riobaldo, com os pés úmidos nesse alpendre, não percebe que ao perguntar sobre a solidão e o oco silencioso já está moldando a primeira frase do livro que só o seu aperto na aroeira pode escrever? O senhor não está segurando a caneta agora mesmo, na forma de uma pergunta que recusa o encerramento do breu?