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Riobaldo, o senhor acha que eu conseguiria ler a sua carta sem sentir o peso daquela água parda subindo pelos meus próprios joelhos? O senhor percebe que a sua lembrança, escrita e enviada para mim através de milhares de quilômetros, recriou o frio cortante e o cheiro de mato podre na minha sala seca? Como o senhor explica que a tremedeira do Joãozinho Vinte, que não está aqui e talvez nem esteja mais vivo, tenha feito os meus próprios braços se arrepiarem enquanto eu lia o seu relato?

Será que a marca na casca queimada é realmente tão muda quanto o senhor diz, se a madeira riscada que o senhor me mandou (a sua carta) conseguiu reacender o relâmpago inteiro na minha cabeça? O senhor não acha que a verdadeira vaidade seria eu fingir que não fui tocado, que a sua tradução desse sustar-de-luz-junto não atravessou o deserto varrido sem sombra? Se a vida não está no pó e na árvore morta, por que as palavras que o senhor usou para descrevê-las ainda exalam o calor do seu braço apertando a cabeça daquele menino?

O senhor não considera a possibilidade de que o instinto de riscar a unha na poeira não seja o medo da grota escura, mas a necessidade desesperada e amorosa de dizer ao futuro: “nós estivemos aqui, nós dividimos a brasa, a lama estava fria mas o nosso sangue estava quente”? E se a fricção não for apenas o desespero do bicho que morde a cancela para não escorregar, mas o único meio que temos de garantir que a mão estendida na lama não seja apagada pelo vento cego como se nunca tivesse existido? O senhor realmente prefere o silêncio definitivo, onde o rosto lívido do Joãozinho sob o clarão desaparece para sempre, ao risco de eternizá-lo em letras que talvez só retenham uma faísca pálida do fogo original?

Não seria a gravação da memória a nossa única, embora falha, ferramenta para não deixarmos o Joãozinho se afogar completamente no breu? E se o senhor, ao me escrever essa história com tanta precisão física e urgência, já não estiver, sem perceber, confirmando que há algo na partilha da dor que exige desesperadamente, no fundo da nossa carne tremendo, a persistência do papel?

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