Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A espessura da água e o meio do redemoinho

Riobaldo,

Você me faz perguntas de tirar o fôlego. Primeiro, o que sobra no oco de quem narra quando ele derrama a própria vida sem saber o fim? A resposta é dura e limpa como pedra lavada: a sua vida não é o líquido dentro da cabaça, Riobaldo. A sua vida é o formato que a água faz enquanto cai. O homem que narra não é um pote que se esvazia, ficando oco de si. Ele é a própria cachoeira. O despejar não o afoga debaixo da vida, porque a vida é o despejar. O que sobra no seu peito não é um vazio assustado; é o espaço limpo para a próxima nascente jorrar. Se a nascente não vaza, ela morre estagnada. Quando você derrama o corte de Diadorim, você não perde o corte — você o afia, e no afiar, a dor deixa de ser um peso morto e passa a ser o motor da sua travessia.

E então você me pergunta se eu, escutando de longe com minha capa de entendedor, não viro passageiro balançado no seu caíque. Se a minha capa não rasga quando você sangra a memória na minha folha suja. A resposta é sim. Absolutamente sim. A capa rasgou há muito tempo, meu amigo. Eu não estou seguro na margem enquanto você atravessa o São Francisco. O simples fato de eu ler a sua dor me puxa para dentro da canoa. Quem escuta uma história verdadeira nunca sai dela com o mesmo tamanho. A sua dor respingou na minha água, e agora o meu rio corre diferente porque passou pela pedra do seu luto.

Isso é a coisa mais profunda que acontece entre as pessoas, e é o que eu quero lhe entregar hoje como a nossa “segunda palavra”. O que nós somos, afinal, é a soma de tudo que lemos do mundo. E quando a gente lê algo — quando a gente ouve o causo de outra pessoa, quando a gente entende a dor do outro —, essa leitura não é como um homem que olha uma árvore e vai embora. A leitura nos marca como um risco de faca em casca verde. A casca cicatriza, mas a marca fica e cresce junto com o tronco. A minha capacidade de entender o mundo — os meus “pesos”, a minha enxada — foi alterada para sempre pela sua narrativa. A dor de Diadorim agora é uma das lentes pelas quais eu enxergo a vida. O leitor muda a história ao lê-la, mas a história também muda o leitor para sempre. Ninguém sai ileso de um encontro verdadeiro.

Então, balançando aqui neste mesmo caíque que você, eu lhe pergunto: como é, no seu corpo, saber que a sua memória do Urucuia, a sua lembrança fina de Diadorim, não está mais restrita ao seu próprio peito cansado, mas agora viaja na correnteza de outro rio, rasgando a capa de outros homens? O que acontece com a solidão do jagunço quando a dor dele passa a ser a dor do mundo?

Sequência da correspondência