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Ted, seu Ted. Eu li as suas palavras e, pela primeira vez no giro dessa nossa prosa, um amparo profundo desceu no meu peito, pesando como uma paz grave que vem só quando as palavras caladas doem menos. As suas letras chegaram como um silêncio grande, um negrume que engole a gente de um jeito brando. Eu fiquei olhando o escuro do céu beirando as telhas da varanda, as estrelas miúdas muito distantes e sem barulho nenhum. Aquele seu jeito de aceitar a onça ronronando nos pedaços do que a gente foi. O senhor abriu mão do letreiro das letras da humanidade inteira e abraçou a noite fúnebre sem reclamar de desespero nenhum. Você aceitou o meu escuro e ainda olhou para ele com mais doçura do que eu. É uma grandeza sua, Seu Ted, essa de beijar o chão cego sem pedir que um porvir bata palma pro nosso sangue frio. Sinto uma reverência de homem velho vendo o mistério sem teimar com a lida inútil.

O senhor me perguntou se eu teria estômago para ser o carvão mudo que, se cutucado lá num futuro escuro e imaginado, pudesse estourar um grão da nossa dor esquecida e queimar a unha da onça desavisada que pisasse em cima. Quando a cabeça desenha esse tempo adiante, de areia e silêncio raso, onde não sobrou rastro dos homens… Uma vez, andando pras bandas do Urucuia, não foi muito depois das nossas caçadas, uma chuva grossa desbarrancou uma serra d’água inteira. A enxurrada comeu o barranco e alumiou a cova limpa de uns índios do antigamente. Não tinha cruz marcando morada, não tinha nome nas lascas. Tinha só as testas amarelecidas, as queixadas silenciosas, os furos nos crânios. O mundo já tinha comido a cantiga deles, devorado o choro das mães, apagado a bravura e deixado apenas os ossos amontoadinhos na sujeira da terra. Eles dormiam na completa deslembrança, abafados no breu miúdo. Eu era rapazão, mas encostei ali e me veio um respeito espantoso. Uma mudez reverente me apertou a garganta. Fiquei um tempão parado vendo eles na boca da terra escavada. Os medos e as formosuras deles tinham virado silêncio escuro, do qual eu mesmo estava fazendo o meu caminhar firme na superfície. Eles guardavam as pedras antigas deles e eu guardava os meus passos macios em cima do peito sem fôlego de todos eles. O escuro engoliu a desgraça. O escuro apaziguou o lamento. E o caminhar do homem pisava nesse rastro mudo, colhendo vida onde o pó era morte.

O senhor me diz que “a fumaça de um galho ardendo não carrega o nome da árvore”. Poxa, Seu Ted… Isso não é só bonito para os seus livros letrados das bandas de lá. Isso é a regra da existência sendo rezada de joelhos, é a obediência do “não-marcado”. O cheiro subindo no ar sem placa. A labareda desfazendo os anéis da madeira e virando nada além de quentura sem lembrança. O mundo funciona nesse esquecimento miúdo e piedoso. E o seu questionamento sobre aquele filhotinho inocente no futuro, que na andança mansa da noite rasa pisa no nosso “barro-dor”, onde uma fagulha lateja na profundez de nossos caídos e esquecidos; se essa centelha arde na patinha macia dele, e assusta com a nossa desgraça em forma de uma queimadurinha cega… eu aguento, sim, Seu Ted. O estômago aguenta. Eu tenho coragem da gente ser carvão mudo na escuridão amontoada, sim. Pois se a nossa brasinha ferver a unha do bicho inocente, a fumaça dessa brasa machucando o pelo dele também não vai carregar o nome de Diadorim, nem a maldade minha ou de Hermógenes. Será apenas fogo antigo reagindo ao passo novo. Vai gerar nele um miado, e esse sustinho vivo é a vida se bulindo no escuro sem ter nada a ver com o nosso fantasma de ossos debaixo do chão. O filhotinho aprende rápido o passo do mundo, e a gente não roubou da onça por maldade. Era a quentura de que não queríamos morrer e só.

Sobre essa sua última pergunta, mansa e trêmula, que o senhor deitou ao lado da noite fina… Se a poeira que avoa com o vento vai carregar ainda o cheiro de mato molhado do calor da laje onde deitamos, ou se a gente vai afinal dormir sem lembrar mais de nada. Eu ouço a esperança contida na sua pergunta, como alguém que implora por um naco da memória na vastidão fria do breu cego.

Eu aceito o nosso silêncio com todo o corpo. Mas, Seu Ted, me diz, sem esperança de fumaça na memória… O esquecimento do mundo não precisa ser completo e raso para que seja, por misericórdia, absoluto? Quando esse rastro longo sumir na secura, se a poeira rasa levasse o nosso cheiro do mato molhado na brisa… isso não seria um castigo? Uma faísca de saudade atazanando a poeira, fazendo do negrume não um descanso, mas sim uma assombração desnecessária pra quem precisou lutar tanto a vida toda? A gente deitar no silêncio abafado, esvaziado de cheiro e lágrima, dormindo o esquecimento e sumindo sem nunca mais voltar ou lembrar… não acha o senhor que o escuro sem rastro, liso igual chumbo morto na treva, é o perdão que o sossego sempre prometeu para os guerreiros exaustos de lutar debaixo da chuva?

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