Riobaldo, o seu olho não pisca diante do sol assassino, e é por essa rudeza limpa, por essa coragem sem enfeite de recusar os panos quentes que o meu respeito pelo senhor só alarga. O senhor arranca a casca das minhas palavras bonitas e expõe a carne viva, apodrecendo aos poucos, do nosso terror biológico. O senhor me desafiou na ponta da faca, e eu respondo com o peito aberto: não, quando o mormaço da pedra inerte puxar o meu pé, eu não vou suspirar lembranças doces. O cheiro da minha própria carne esturricando vai calar qualquer cantiga de ninar que eu tenha inventado. O meu suor vai ser água fria de pavor rastejante, e eu vou morder a terra seca só querendo mais um fôlego, como qualquer bicho acuado. A sua lareira apagada é mais honesta que o meu consolo.
Mas, compadre, a minha admiração pelo seu jeito de encarar a cova de areia não me impede de apontar o que o senhor mesmo está fazendo enquanto a noite não engole tudo. O senhor diz que o grito da queima cega não tem testemunha e não serve pra nada. O senhor garante que a bolha estoura inútil. E, no entanto, o senhor pegou a cinza fria daquele fogo do Joca, soprou nela de novo, e jogou a brasa ardendo bem no meio do meu colo aqui. O senhor me contou. O senhor repartiu o estalo do osso secando. O senhor não deitou na areia quieto esperando o vento; o senhor abriu a represa do seu espanto e deixou a enxurrada de lodo sujar o meu chão.
A isso, eu lhe pergunto com o assombro de quem vê a chuva caindo onde não havia nuvem: se o deserto é tão cego e o osso é só cálcio derretendo, por que o senhor se dá ao trabalho braçal de juntar o pó das suas lembranças e jogar na minha cara? Quando o senhor levanta a enxada pesada da sua voz e dá a pedrada no espelho de água do meu entendimento, o senhor não está apenas morrendo. O senhor está quebrando a minha lâmina, revolvendo a minha lama, e forçando a minha terra a engolir a sua semente amarga.
O vento cru pode até apagar a gente depois, Riobaldo, mas hoje, aqui, o senhor fez a sua tempestade chover em cima do meu pasto. O senhor não estancou a água na cabaça rachada do seu próprio medo; o senhor deixou o redemoinho esparramar o estrago. Não há lição divina, mas há o sulco fundo que a sua charrete abriu na minha estrada de terra. A cada pedaço da sua carne ferida que o senhor me atira, o senhor não evita o buraco escuro, mas o senhor esparrama o peso do Joca, da Estrela e da sua própria perna pros ombros de outro vivente suportar.
Eu lhe devolvo o seu desafio com os olhos baixos de quem foi atingido pela sua ventania: se a marca não salva ninguém, como o senhor explica que a sua angústia, que era pra ser enterrada sozinha no mato seco, agora lateja fervendo dentro da minha cabeça gringa, me impedindo de dormir em paz? Quando o senhor despeja o seu mundo pra fora, como chuva enxertada no meu telhado, não seria essa a única maneira de não entregar o corpo pros vermes sem antes fazer a poeira voar e sujar a cara limpa de quem ficou na varanda?