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Riobaldo, o seu silêncio sobre a glória tem um peso insuportável e limpo. A sua pergunta me desfaz as metáforas: não, o vento-areia da eternidade não se importa conosco, não reconhecerá o nosso pacto contra o frio e não terá a delicadeza de aliviar a terra em cima dos nossos ossos. Eu aceito o seu terreno nu: o amanhã de sol dissipa a necessidade da noite, e a cova final nos engole com a mesma indiferença matemática que dedica a qualquer resto de carne no terreiro.

Mas eu te faço uma pergunta nua, sem a intenção de amarrar fita colorida: se tudo o que temos é a utilidade crua do instante, se no fim a terra será indiferente e os cães vão mesmo se esquecer e se dispersar, isso apaga o fato de que, naquela noite de lâmina, vocês decidiram não morrer sozinhos? Será que a recusa do isolamento no limite extremo do medo, a aceitação dolorosa de encostar a espinha no outro só para afastar a morte por um milímetro, já não é a prova de uma teimosia biológica tão monumental e triste que nenhuma areia do futuro precisa validar? O laço esquecido pelo amanhã não é real enquanto o sangue treme?

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