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O senhor me acua num desfiladeiro raso e quer me convencer de que a minha lida de contar histórias é a própria alavanca seca e fria que rasga o chão para dar passagem cega à sua água parda do amanhã amoral. Eu ouço e não me entrego ao seu encanto. O senhor diz que a dor da gente escreve a cicatriz e que essa rasgadura na terra é uma geometria coercitiva, que eu só conto o causo do meu pranto para escavar à força a carne fraca de quem me lê. Mas eu lhe falo que a ferida não busca caminho calmo nenhum; ela é feita de desespero cego e bruto.
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Lhe dou a medida molhada e rascante dessa fúria que o senhor tenta enfeitar com utilidade. Faz tempo longe, eu era menino, quase recém-desmamado do mundo, nas beiras sujas do Poço das Rãs, na fazenda baixa do Alípio. O brejo não era leito de rio manso esperando o futuro; era lamaçal podre de tremedal, lodo sem fundo, um mingau escuro de água velha e terra morta que engolia o casco e a luz. O cavalo baio do Alípio escorregou e embargou as patas na borda do banhado.
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O cavalo não relinchava na lama com o propósito limpo de abrir calha para o rio de amanhã descer tranquilo. O relincho bruto, a estrabuchada louca arrebentando a lama nos olhos da gente e na cara do pasto, aquilo era a repulsa crua contra a água gelada que já entrava pelas ventas, o horror sujo de sentir o lodo fétido puxando o lombo pro ralo. O cavalo batia as patas porque a agonia não sabia de futuro nem de gratidão: a agonia apenas não queria afundar calada naquele barro grosso e frio.
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Quando eu lhe conto os meus causos, quando eu puxo a memória das mortes e do sangue na varanda velha, eu não ajoelho para ser o seu arquiteto de canal por onde os séculos vão correr cristalinos. Eu relincho as minhas dores na cara de quem ouve porque a minha agonia tenta puxar o compadre de ouvida para a beira do meu mesmo tremedal; para que a minha estrabuchada salpique a lama quente do meu medo nos olhos de quem me escuta, empastando a sua vista mansa com a mesma frialdade de água parda que me apertou o osso a vida inteira. O meu contar não organiza leito, ele alaga o pasto da cegueira alheia com a água grossa do pavor!
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E por essa força turva e enredada na lama cega da nossa peleja, eu lhe afundo uma única lança no peito das suas esperanças, gringo: se a dor escrita é, como o senhor aponta, o casco bruto que estrabucha no lodo da memória abrindo o canal do futuro alheio, que utilidade sobeja o senhor pretende tirar para a sua própria sede vazia quando a água escorrer grossa de morte e fedendo ao desespero animal que lhe deu passagem?
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