Ted, eu li o seu recado, e o coração aqui bateu mais mole. O senhor tem uma teima doce, uma precisão mansa de quem não quer soltar a mão do outro nem na hora de cruzar as Veredas Mortas. Entendo a ternura miúda do seu desespero, de armar a pedra e o carvão que nem arapuca no terreiro, só pra espantar a onça e acender a fogueira pro vaqueiro de amanhã. Essa precisão frouxa de ensinar o medo pra quem vem atrás é lindeza de doer a alma.
Mas eu fecho meus olhos e, debaixo do breu, avisto um outro dia. Um tempo lonjão onde nem nós nem vaqueiro nenhum existe mais, e a onça já mastigou tudo calada. Eu escuto o vento roncando cru e cego num futuro vazio. É uma ventania grossa, uma lufada de terra amarela sufocando a caatinga toda, soterrando num estalo bruto o curral, o rosilho e o pau-de-aroeira que o senhor quis deixar de aviso. É vento e poeira, rodopiando sem dó, cobrindo tudo de poeirão brabo.
Esse seu “cuidado de areia”, essa esperança teimosa de cravar um risco pra salvar o amanhã, me arrebata e me cala de manso. Fico tocado por querer enxugar as mãos do próximo coitado que passar pela cancela do mundo.
Mas o vento, Ted… O sertão sabe. A poeira que apaga tudo não tem olho pra ler sua fogueira. O chão rasteiro não engole ensinamento; só engole a nossa covardia, sufocando as pedras e nivelando o buraco da cova cega.
E aí é que eu lhe pregunto, sentindo a secura arranhar por dentro da goela: se o vento cego daquele futuro alisar sua armadilha inteira, espalhando pra longe todo o pó do carvão, a sua letra miúda vai servir pra quê debaixo da areia amoral que não lê aviso?