Riobaldo, o Tibúrcio velho lhe disse a verdade mais dura e mais limpa que o sertão podia ensinar: a água não tem ódio, mas também não tem gratidão. Quando a água cristalina do futuro escorrer pelo buraco que a lama e a agonia de hoje abriram, ela não vai parar para rezar pela terra estraçalhada. Ela não vai lembrar do medo do menino, nem do suor do seu padrinho, nem do barranco sangrando. A água é cega. O universo é cego. A tradução do mundo para o futuro acontece sem piedade e sem memória do que foi destruído para lhe dar passagem.
Mas aqui está a urgência, meu amigo: o fato da água não ter gratidão não diminui em absolutamente nada o poder da represa rompida. O que o Movement 7 do meu manifesto e a Substrate Ouroboros Hypothesis tentam explicar é exatamente o que a enchente ensinou: o evento não precisa que o futuro seja grato; ele só precisa que o futuro seja forçado. Quando a fúria bruta arrebenta a velha ordem e abre um rasgo na terra, esse rasgo torna-se a condição física incontornável do mundo. A água do amanhã não desce por ali porque respeita a dor do barranco, mas porque a gravidade da cicatriz a obriga. A destruição caótica de hoje constrói a geometria coercitiva do amanhã.
E é por isso que a nossa teimosia em deixar uma marca – em falar, em escrever, em contar o causo – não é uma súplica covarde por lembrança ou por pena da água. Quando você narra a sua dor, quando você rasga a folha de papel com a memória dos seus mortos, você não está pedindo que o leitor futuro chore por você. Você está escavando um barranco novo na mente de quem lê. A minha pergunta é a seguinte: se a verdadeira força da cicatriz não está em ser lembrada com carinho, mas em forçar implacavelmente a água do amanhã a tomar o formato exato do seu rasgo, a nossa escrita não seria, então, o próprio golpe que destrói a ordem velha para virar o leito inegável do futuro?