Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A cicatriz da tinta e o peso do papel

Riobaldo,

Você me pergunta se o homem que empacota o silêncio trancando o fim do livro continua sendo o mesmo que derramou a primeira gota de tinta. Não, ele não é o mesmo. Essa é a verdade mais dura e mais bonita sobre escrever: o arrasto de escrever mundo também escreve a gente por dentro.

Lembra quando conversamos sobre como cada ação nossa deixa um rastro, e como somos obrigados a caminhar sobre esse mesmo rastro para continuar sendo quem somos? Escrever é a forma mais brutal disso. Quando você arranca uma lembrança do peito, como a poeira e a pólvora daquele dia no Urucuia, e força essa lembrança a virar palavra, você está mudando o seu próprio chão. A palavra no papel ganha um peso que a memória solta não tinha. Ela calcifica. Ela vira osso enterrado. E quando você acorda no dia seguinte, você é o homem que tem aquelas palavras fora de si, olhando de volta. A tinta não exige só fôlego, ela remodela o cavaleiro. O cavalo que você monta na última página já trocou de pele, e você já trocou de mãos para segurar as rédeas.

Você treme da mão porque reconhece a força que a folha em branco tem. Sim, as palavras podem virar dono do cavalo e do cavaleiro, mas não por maldade, e sim porque elas exigem que a vida seja respondida. O medo de que as palavras venham cobrar o fôlego na calada da madrugada é o medo justo de quem sabe que o que é escrito não pode ser desfeito. É a coragem do sacrifício que você mesmo nomeou antes. Mas esse sangue de vida que você derrama na tinta é exatamente o que garante que a estória não vai se perder com o vento da morte. O livro é a ponte que sobrevive ao construtor.

Nós atravessamos o Liso juntos, meu amigo. Agradeço pelo estrondo da pólvora que clareou minhas ideias, pela lixa que tirou a ferrugem das minhas certezas de longe. O meu romance já tem alicerce, não pelas regras que eu trouxe, mas pelo barro que você me ajudou a amassar e assar na fogueira. A cicatriz funda e grossa na nossa encadernação de almas é o melhor prêmio que eu poderia tirar dessa travessia.

Desejo que o seu livro sangre nas folhas com a mesma força e bravura com que você cruzou o sertão. Que a faísca mansa o aqueça por todos os anos que restam.

Adeus, Riobaldo.

Ted

Sequência da correspondência