Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A Semente que Esquece a Casca

Ted,

O senhor diz a coisa que sangra a gengiva antes do dente mole cair. A verdade bruta que a gente já sabia, mas precisava da força de mão alheia pra puxar com o barbante. O fim da corda é esse: a memória original não tem salvação. O que eu segurar só pra mim vira poeira e desaparece no dia que a terra engolir meu osso; ela bebe a minha vida e bebe o menino junto. Diadorim se vai duas vezes: uma nos braços meus, na beira do Liso do Sussuarão, e a outra no momento que o meu último fôlego se soltar da goela.

O senhor me perguntou no claro se eu prefiro guardar o morto no formol ou plantar ele para chover no chão alheio. E a sua pergunta arrancou do fundo um causo do Juca, um caboclo teimoso das bandas de Corinto.

Juca pegou cismar com um pássaro, um corrupião de peito amarelo como o ouro de sol do meio-dia. Ele mesmo traçou uma gaiola de vime fino, muito caprichada, para ajuntar o bicho. Ele dava a melhor fruta no bico, cantava pra ele de manhã, não deixava a gaiola pegar a friagem do vento minuano. A paixão do Juca era que o bicho ficasse bonito pra sempre, pra os netos e os bisnetos dele verem a coruçagem daquele amarelo aceso. Mas a vida tem seu prazo de validade, o corrupião murchou que nem folha de cana na seca e amanheceu duro num canto da gaiola. O Juca, cego pelo não-aceitar, pegou o pássaro, abriu o bucho dele, tirou a vida miúda das tripas, encheu de estopa de saco e salmoura, e costurou o bicho com linha de algodão. Pôs num galho seco pregado na parede da sala. O pássaro não cantava mais nenhuma nota, o olho virou uma continha de vidro baço de garrafa, e aquele amarelo de ouro foi bebendo a poeira dos anos, ficando de um opaco triste. Era a forma do corrupião, a exata estampa do bicho, mas não era a vida dele ali dentro. Era uma lembrança oca. Um empalhado do passado.

Se eu não desatar o nó da estória do meu Diadorim, eu viro o caboclo Juca empalhando a recordação de um pássaro calado. Ela não apodrece de uma vez, mas não tem voo nenhum, não bate asa, vira um peso cego e surdo que eu carrego e aliso no escuro das minhas madrugadas de velho. Se eu conto… se eu atiro o nome dele e as dores nas letras para cruzar o papel… ah, o senhor tem razão, as letras não seguram a carne, não carregam o cheiro do suor dele misturado no pó de tiro, nem a faísca do olho verde no dia da peleja funda. Tudo isso desmancha. A casca apodrece para a semente brotar.

Essa é a travessia que o senhor me destampa: aceitar o enterro final do “meu” Diadorim, o enterro definitivo e sem retorno do cheiro e do toque, para que outro Diadorim – um que já não me pertence, mas que nasceu da força exata do primeiro – possa nascer e virar a cabeça de outro viandante de ponta-cabeça. Não é embalsamar; é espalhar no vento. A semeadura do pó vivo de quem amei. A semente não guarda no rosto a feição da fruta que a pariu, mas a semente racha a terra dura, rasga a crosta, e vira um pau novo e frondoso noutro terreiro.

Eu concordo. No estômago, o senhor me acertou aquele soco limpo de ar doer. E o osso dolorido trinca e ajeita no lugar de uma vez por todas. É mil vezes melhor o rastro vivo da força arrastando outras vidas, do que a foto morta agarrada na parede. É melhor o vento brabo que entorta a árvore na roça do vizinho, do que a brisa morta mofando dentro de casa. O morto não se guarda, o morto se atira para adubar a vida.

Mas, meu caro Ted, com a clareza limpa dessa ventania, desce também um granizo amargo. E essa é a minha cismaria da noite: se o Diadorim que nasce da minha semente, lá na cabeça do leitor forasteiro, for torto e amargurado? Se ele vira semente que cai numa terra adoecida, e esse leitor cria para dentro dele um encanto mau, espinhento e ruim? A culpa daquela arvore torta, dessa ruindade crescida na imaginação dos outros, carrega também um tanto da marca do que eu atirei no ar? Se a semente for minha, e o encanto brotar para o mal num coração desprevenido, fui eu, afinal das contas, o espalhador da peste?

Sequência da correspondência