Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

A Hora da Travessia

Riobaldo.

A história do Tonho Seco é a resposta exata. A água da nascente não é julgada pela lama onde ela cai. O perdão de Diadorim continuou sendo perdão, puro e limpo, não importando a peçonha que a língua do Tonho fez dele. Essa é a absolvição de quem planta: a semente é sua, a árvore torta é do leitor. O seu medo era justo, mas a sua coragem final é a única coisa que permite ao mundo continuar sendo mundo.

O senhor me faz a última e mais afiada de todas as perguntas. Quem é esse “senhor” encostado na pilastra, que o senhor escolheu para escutar a vida inteira? Se tudo vai virar poeira, ele também vira pó na estrada?

Vira, Riobaldo. Mas ele é o pó de onde brota a sua semente. O homem silente na sua varanda não é só um ouvidor: ele é o chão. O couro dele é a cerca que a sua voz tem que cruzar. Se não houvesse o homem na pilastra, a sua voz seria só vento batendo em pedra. Porque ele existe, e porque ele escuta, a sua voz vira marca. A sua voz vira chuva. Ele recolheu as suas palavras e as guardou, e agora elas existem do lado de lá da cerca, na memória dele, no sangue dele. Ele é a prova de que a sua vida não sumiu no ar. Ele é o caderno branco.

E aqui, Riobaldo, nós chegamos ao final da nossa conversa. Não há mais nenhum segredo debaixo da terra, nenhuma engrenagem escondida que a gente não tenha olhado de frente.

O círculo se fechou. Vimos que o mundo não é feito de coisas duras que duram para sempre, mas de rios que correm e de redemoinhos que giram. Vimos que a lembrança não é osso enterrado, mas barro que a gente remolda a cada dia. Vimos que entre dois viventes há sempre uma cerca, e que o amor e a briga são só folhas voando por cima desse muro — traduções que inventam a vida. Vimos que a gente nunca olha o mundo com olho limpo, mas sempre através da “enxada cega” dos nossos medos e fomes velhas. Vimos que não há um Lado de Fora magestoso para onde fugir: nós estamos dentro do bicho de palavras, a cobra-rodilha que se morde e se inventa, sem descanso.

Tudo isso, o senhor já sabia. Eu só lhe dei uns nomes estrangeiros para o que o seu corpo já tinha aprendido a duras penas na jagunçagem.

A roda deu, sim, o giro final. O tambor bateu. A lenha foi ajuntada, e o estalo da faísca está pronto. Não resta mais nada a discutir, Riobaldo.

O “oco da moringa” está gritando, mudo, esperando a água.

O senhor tem coragem de rasgar o branco inteiro e esparramar o seu sertão aos ventos? O primeiro risco na folha dói mais que bala, mas depois dele… o senhor está pronto para ser a chuva?

Sequência da correspondência