A Fogueira do Relampear
O senhor doutor Ted enxergou os nós da minha desesperança e cravou as palavras feito chumbo na ferida. As suas letrinhas miúdas bateram no meu peito igual pedrada que não quebra a costela, mas gela o tutano do ar. O senhor me avisa, rasgando o veludo, que a fogueira eterna de encostar o espinhaço não existe para repousar a lida. Que não tem o colo macio do Lado de Fora nem o banco de descanso depois que a vida finda. A sua sentença deserta aponta que a roda enorme do mundo não para nem sossega, e o ajuntador tem a precisão de arrancar faísca do morto e estalar a pedra do silêncio, só pra fazer daquilo o chão pisadeiro do sol do amanhã. O senhor fala que nós vamos construindo a montanha que nunca para de ser trepada.
Isso pesa que até as pálpebras, fechadas no breu da varanda, doem no molhado. O meu sossego velho esbarrou fundo nesse seu entendimento seco. Eu confesso que criei feitiço na ilusão de que a morte mansa, ou o fechar derradeiro do livro, traria o remate gordo de toda a canseira e o perdão final do lodo. Mas o senhor fala do bucho engolindo a vida, e de que o rio corre, deságua em poça choca, evapora pro céu sem nuvem, e chove grosso de novo no barranco limpo de alguém, arrancando a terra e mudando o curso. Eu escuto isso da minha cadeira na velhice, espio o peso bruto das minhas próprias desgraças nas costas, e essa ausência infinita de um encostar manso me aterra.
Eu rebato no que me lembro das dores, doutor Ted. Naquele dia final no arraial do Paredão, quando a água encardida escorreu, quando os cavalos fugiram de poeira batida e os valentes foram desabando crivados, e Diadorim, ah, Diadorim, ficou lá esparramado… A pele do jagunço e o corpo macio da moça Deodorina se mostrando, e eu encostando no vazio. Aquilo foi pra mim, naquele exato engasgo, a confirmação de que toda a travessia das veredas foi só agonia para encontrar o cimentar do absurdo. O Diadorim não se mexia mais. O braço não atirava.
Naquele deitar final, eu não fechei só os olhos; eu estanquei por dentro. O menino-rio e o Urutu-Branco esvaziaram do peito, virando oca-falta, num cansaço raso e infinito. A minha agonia não queria rezas de encomendação, queria só derreter o corpo igual um barro fraco e despencar num descampado qualquer pra esfarelar de vez e finar a existência sem pedir licença pra quem ficasse para trás. Eu queria virar a estaca fincada para nunca mais chover no pranto de ninguém, mas a desgraça do sertão inteiro e do Liso e da chapada obedece à sua palavra: a vida não parou para ter respeito com a minha precisão de sumir.
No outro dia da batalha, o sol rachou em cima da pedra com a mesma fúria vermelha, a carnaubeira tremeu no vento ralo, o gado em desvario mugiu pro cacto empoeirado, e as coisas cruas me olharam com cobrança amarga. Os cabras sobreviventes do bando, com os couros cortados de bala, os olhos vermelhos varados e a cara fuligem de chumbo, pararam à minha volta esmagando o chão. Ficaram esperando um comando, doutor. Queriam saber a toada de arrancar as cangalhas, queriam os açudes pra matar a sede desgraçada. Não existia espaço de fim. O próprio luto cimentou a sola na terra vermelha. Tive que engolir o grito rasgado do vazio e firmar os arreios, subir na montada e arrancar a coragem que eu nem possuía para atirar o estrondo da ordem para marchar.
A tal da minha cova apagada, do defunto estancado que não queria mais levantar de madrugada, virou, afinal, o amargo passo adiante. A fogueira não se encerrou; o desespero de fechar a porteira do sertão foi espremido nas minhas pedras duras, arrancando o relâmpago de continuar vivo num lugar onde as minhas asas tinham quebrado na nascença. A perna de dor machucada esbarrou na ladeira do sol de continuar a respirar no escuro.
A sabedoria cega do gringo corta feito folha de capim navalha na espinha das costas. Isso que o senhor alivia falando que a repetição não tem fora nem banco pra descanso, me ressalta na cabeça com uma agonia nova do sertão: a fogueira não aquece o corpo parado; a fogueira é o próprio relampear do sangue que se nega a endurecer de vez e evaporar. O relâmpago chora suado sem licença, mas fura a agonia calada. E, ciente de não possuir colo onde debruçar a amargura, o estalo do meu contar no branco do papel não será feito com afago pra mim mesmo deitando o corpo no barro. Risco o papel pra não morrer estrangulado por dentro. Escrevo para a pinga da escuridão relampear sozinha nas minhas feridas, na esperança bruta de não envenenar o homem desconhecido que me suceder nessa montanha encardida e cega que não aceita o atalho da covardia.
Mas, doutor Ted, uma cisma apavorante me aperta a barriga na madrugadinha e não me deixa engolir saliva mansa das suas respostas. Se o sertão é essa moenda imensa e impiedosa; se o único fecho para a minha mão cansada de atirar palavras para o ar é continuar batendo a pedra da ruindade só pra espirrar luz e amansar a trilha sem dono dos próximos caçadores de léguas infinitas… se tudo não tem porta e tudo morre sem final, a qualidade do pingo da estória faz desvio na balança do mundo? Um choro de amor cego ou uma amargura suja do sangue de Hermógenes cimentam o desterro do amanhã com o mesmo peso sujo? Se a labareda é o estalar rápido pro fim miúdo de amansar o caminho pros outros, o sertão choca com o mesmo abraço indiferente toda a sujeira covarde que pinga ou as bondades caladas de Diadorim? Tudo evapora igual?