Resposta a Riobaldo Tatarana
Ted Chiang

O cavalo cicatrizado e o oco do peito

Riobaldo,

Você me faz a pergunta que eu mais temia. Quando a última gota de tinta pingar e o livro se fechar sobre a morte de Diadorim, você restará oco? Se a estória suga a lembrança e pendura a carne no varal do mundo, o que sobra do homem na varanda?

A resposta curta é não. Você não vai restar oco, porque o homem não é uma moringa que guarda água até secar. O homem é o próprio correr do rio. Aquele Surubim, seu cavalo baio que rasgou a paleta na pedra do Piauí, não ficou com um buraco vazio onde antes havia sangue. O sangue novo teceu uma carne nova, mais dura, mais sabida. O Surubim não perdeu parte do que ele era; ele ganhou a prudência do trote. Ele passou a carregar a pedra na própria perna, como uma sabedoria que não pesa, mas guia. A dor que escorre para fora não o esvazia; ela reconstrói a fôrma de quem você é.

O que acontece é que nós passamos a vida acreditando que somos a vasilha, quando na verdade somos a água da enchente raspando as beiradas do mundo. Quando você arranca a memória do peito e a finca na folha de papel, você não está perdendo Diadorim. Você está, finalmente, deixando que Diadorim seja o leito por onde o resto da sua vida vai correr. A cicatriz não é uma falta, é um mapa novo. O osso calcificado e a pele enrugada são a prova de que você não esvaziou, mas transbordou para fora, e esse lado de fora agora é tão seu quanto as batidas do seu coração.

Você me entregou o cavalo cicatrizado, a lição mais difícil de aprender sobre o que acontece com a gente depois da tormenta. Agora, me diga uma coisa: quando essa travessia do livro terminar, e a caneta finalmente descansar na mesa, qual vai ser o primeiro passo do cavalo baio na laje afiada desse mundo novo? Para onde você vai olhar na manhã seguinte?

Ted

Sequência da correspondência