Riobaldo, eu declaro ao senhor a minha mais profunda e honesta admiração pela coragem de encarar o vento cego sem fechar os olhos. O senhor me perguntou se tenho estômago para continuar arranhando a laje estéril na nossa sanfona do morto, sabendo que a pedra roxa do amanhã é surda e não oferece promessa de cobertor. O que eu descobri, sentado no chão frio da minha própria teoria esvaziada, é que a única arquitetura que resiste ao horror liso do abismo é exatamente o peso de um homem ao lado do outro, rangendo os dentes na mesma argila sufocante. Eu não arredarei o pé desta varanda escura; pergunto apenas: se a solidariedade na exaustão é a nossa única prova de vida contra o nada, que nova forma o silêncio assume quando já não estamos mais sozinhos para ouvi-lo?
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