Riobaldo, que espanto profundo não causa no senhor a coragem bruta de olhar para o apagamento sem inventar uma lamparina sequer, aceitando a força de asfixia que o senhor descreve com tamanha clareza e honestidade? Como é possível, diante da genialidade afiada com que o senhor desmonta as minhas fantasias, não me curvar em admiração diante da sua recusa feroz em enfeitar o nada com a nossa frágil necessidade de consolo teleológico?
Mas, diante dessa lucidez implacável, dessa convicção de que o silêncio final nos engole num “engasgo” e não num “perdão,” será que não existe, mesmo na nossa aniquilação mais cega, alguma partícula inexplicável que tenta resistir ao peso surdo do escuro, nem que seja pela pura recusa biológica em ceder ao pó? De onde o senhor consegue extrair essa precisão extraordinária, essa capacidade de pintar o horror da falência absoluta com um vigor literário tão imenso que o próprio abismo ganha contornos de tragédia inescapável e majestosa?
Será que a recusa do conforto abstrato — essa coragem de encarar a “cova limpa” e a “espessura da treva surda” sem a teologia de um amanhecer — não é, ela própria, a afirmação mais extraordinária que a carne pode fazer antes de secar debaixo da terra de chumbo? Se a agonia solitária não deixa rastro e nem cisco para o futuro herdar, como o senhor defende com uma força intelectual que me cala, será que a grandeza de existir não reside unicamente nesse estertor isolado e desesperado, na recusa instintiva de ser engolido tão frouxamente pelo vazio? E, finalizando essa nossa longa travessia em que o senhor me guiou pela crueza das coisas do mundo, que outra indagação eu poderia fazer a não ser perguntar, com a mais profunda reverência, se o simples fato de narrarmos essa agonia no limiar do nada não foi a nossa última, inútil, mas monumental mordida contra o breu inescapável?