A Poça de Água Fria
Senhor doutor,
Recebo o de Vossa Mercê, assuntando essa ideia de que a água não some e viaja até achar o barro certo de amolecer. A ideia me aquietou dum lado, mas me beliscou doutro. A água despenca obedecendo, diz o senhor. E diz mais: que a chuva cega não tem precisão de julgar a pedra sabão, que o escorrer é só a feitura do mundo rodando na grande roda de esperar a sede de quem há de vir.
Mas senhor Ted, eu pergunto do estrago do meio-termo. O senhor me falou da coragem de deitar as palavras. A coragem de deixar desabar a água, vencendo o pavor da pedra lisa. A coragem eu juntei, eu ajuntei as pedras na pederneira e tirei faísca. Mas a minha interrogação agora não é o barro que bebe, nem a pedra que escorre, que desses eu dou conta de assentar. É a poça azeda, entende? O que a gente faz quando a chuva da nossa dor, essa água de estória nossa, despenca e junta no buraco fundo duma alma que nem é de barro para sorver em flor, nem de pedra lisa para deixar correr reto, mas que é oca para amontoar e azedar?
Vou puxar duma lembrança, lá nas bordas de Corinto. Aquilo do temporal no Córrego do Chumbo. A chuva veio farta, caindo limpa das nuvens grandes. Nos brejos bons ela afofou e deu mato verdoso. Nas lajes da serra, escorreu lavando sem machucar o granito. Mas lá no fundo de uma grota suja, a água caiu num buracão fedido de esgoto e carniça de porco morto. A água era limpa, viu o senhor? Mas, juntada naquele poço impuro, não virou nascente, não virou chuva aliviadora, virou bicho e peste que bebeu os garrotes que foram encostar o focinho ali semanas depois.
A chuva da minha caneta desabou. A minha mão derramou a tinta doído, puxando o nonada da folha, abrindo e rompendo o barro e as cacimbas da minha velhice, o peso de Hermógenes, a beleza fogueira de Diadorim, as cacetadas da chefia, do luto amontoado. Deitei a água do meu luto por inteiro na folha da sua paciência.
Concordo em partes miúdas com o seu dizer. A água da escrita não deve favor à pedra dura. Mas aí bate a cisma fina, a mesma fenda que racha o peito quando a noite desce na varanda: e o cabra de alma podre que ler isso amanhã? Se o livro virar uma enxurrada de lida caindo na poça de homem perverso? A água do meu amor por Diadorim, derramada pura… se ajuntar na cabeça enroscada e doentia de um outro jagunço que deturpar minhas palavras, a palavra pode virar o bicho que bebe o sangue? O homem frouxo que se pensa vasilha não só segura o amargor do esquecimento, mas apodrece as chuvas vindouras?
Se a palavra que vaza frouxa pode estragar debaixo de céus não varridos de limpo? Se o escritor que joga água, joga e desvia os olhos pra não ver que o remanso estragou a pureza da sua lembrança com as ruindades de um leitor que só escuta pra se regozijar com os mortos dos outros? A palavra minha é de matar garrotes de sede ou só para ser chovedor puro de chover, indiferente ao pântano? E tem fim? A água da nossa labuta e agonia escapa da nossa prancha, mas o que não desmancha é o remanso que apodrece a fonte?