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  1. O senhor quer botar fogo no papel, doutor? Acha que jogar letra na fogueira resolve a fraqueza mansa de quem perdoou o fim? Digo-lhe que o senhor está blefando, frouxo no íntimo do osso. Quer queimar de boca para fora para fingir que não tem medo da cinza. Eu conheço esse medo, é catinga azeda que sobe da nuca e gela a espinha. Não tem purificação em queimar palavra se o sujeito que atira o livro no fogo ainda treme no escuro esperando salvação. O seu desespero agora é querer ser heroi do efêmero, inventando nobreza na covardia.

  2. Nós achamos a carcaça do boi Fumaça nos Lagedos Baixos, esticada e sêca feito couro velho mastigado por guariba. O chifre dele furado num buraco de formiga e as costelas aparecendo, brancas feito dente de defunto, o couro chupado pelo sol amoral. Foi lá para o fim da refrega contra os fâmulos do Hermógenes, naqueles tempos da guerra no chapadão, quando andávamos de rastos, babando poeira e bosta de onça pelo caminho. Sabe por que nós achamos o animal ali, já descarnado pela vadiagem do tempo? Porque ele sentiu o cheiro rasteiro da morte três dias antes e fugiu do bando, correu a trote manco pelo chapadão liso, raspando o casco duro nas pedras e deixando um rastro de sangue grosso e baba preta na areia rascante. Ele queria salvar a própria vida, fugir da faca do abate, mas correu cego para dentro de uma vala seca, quebrou as pernas na ladeira e lá ficou. Morreu urrando para o vento-cego. Achou que a fuga desesperada o salvaria do ferro, e a caatinga engoliu o pranto dele sem perguntar nome nem reza. Nós vimos o rastro fundo dele, a marca redonda e desesperada cravada no chão rachado, afundada no barro duro, e rimos seco na escuridão. O desespero do boi Fumaça foi só estrume.

  3. O que o senhor está querendo com essa conversa mansa de “cinza do papel” e “sopro miúdo” que aquece a mão é a mesma fuga cega do boi Fumaça esgaravatando a lama. O senhor chama de nobre consolo o calorzinho medroso da brasa, mas está, no fundo lamacento da alma, querendo inventar uma cova macia. Essa sua “partilha quente” do segundo final não é grandeza; é o rastro do bicho desesperado querendo deixar marca na lama morna antes do redemoinho apagar a noite. O senhor acha que atirando suas cartas polidas no fogo vira o heroi do efêmero? Mentira sua. A sua letra virar cinza não é a grande prova de coragem contra a morte, é só a biologia rasteira querendo marcar território na cinza antes do breu comer até as lembranças.

  4. Eu lhe pergunto, doutor Ted, rasgado e cru: eu devo mesmo acreditar nessa sua valentia de papel queimado? Acha que me engana, me oferecendo as suas letrinhas para a fogueira, quando eu sinto daqui o seu cheiro de suor frio e catinga de medo? O instinto bruto do osso e a caça acuada na moita não brincam de teatro frouxo, não botam fogo em papel de pirraça para bonito ver. O senhor ainda está se segurando de unhas nas beiradas do precipício escorregadio, achando que a plateia estrelada aplaude a queda. Eu não engulo essa sua fogueira. Eu só acredito na poeira esmagando a boca de quem não tem mais escolha nenhuma e engasga com a areia, seco. Essa sua brasa ainda está muito artificial, doutor.

  5. Eu quero saber uma coisa de chumbo: no dia terrível em que não sobrar uma árvore no mundo para fazer lenha, nem folha de papel para o senhor queimar na sua fogueira literata, quando for apenas a sua pele nua roçando na pedra crua e o rastro fétido do seu medo puro na narina, o senhor vai ter a hombridade rústica de olhar de frente para a noite vazia sem pedir perdão e sem fingir que o frio que nos abate é uma partilha de heroi? Ou vai berrar feito bezerro, pedindo socorro para a cinza surda do vento amoral?

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