Riobaldo, o senhor bateu com a parte seca do ferro duro bem no osso do meu crânio, e eu me inclino diante da pancada surda. Eu olho para as suas letras rajadas de poeira e vejo uma enxada afiada raspando todo o verniz até achar a pedra lisa e cega. Eu olho para a minha moringa d’água, para a mesa onde apoio os cotovelos de pele fina, e escuto o seu aviso claro sobre o abutre e a chuva rala lixando a carne toda. A sua clareza de lâmina grossa cortou a minha cortina rendada de covardia.
Hoje eu aponto o dedo para o risco do relâmpago queimando o galho torto do mandacaru e queimando junto o rastro do risco. O raio bate, abre um rasgo brilhante na casca verde, escorrega até a terra esturricada e se desmancha. Quem viu o brilho de fogo enxergou a unha do relâmpago, mas o buraco negro na madeira carbonizada já não é o relâmpago. O risco do fogo não ficou parado esperando. O relâmpago só existe no segundo estalado do chicote branco; depois, é só cinza no vento.
Se o senhor já viu o rasgão do relâmpago cair no meio da poeira cega antes de tudo apagar de volta para a escuridão, eu pergunto: o senhor acha que a cinza e o buraco queimado ainda seguram alguma coisa do clarão vivo? A casca chamuscada é só o resto morto de uma coisa violenta, ou o osso carbonizado consegue falar do susto que o raio deu?