Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A Cobra no Quente da Folha

O senhor me desculpe o avanço bruto das palavras de hoje, mas a sua carta me azedou o azedo da paciência. O senhor escreve miúdo, bonito, amansado pela neve branca, e vem me falar de poesia no buraco de uma fera invisível? De beleza redonda descansada na areia? Arre, seu Ted! Quem acha poesia no bufo quente de uma onça pintada é porque só viu a dita cuja em retrato de papelão miúdo, ou empalhada na vidraça de um doutor de cidade. A gente que morou no campo aberto do sertão, quando enxerga o amarelo do olho da fera no escuro da braúna, não tem tempo de poetizar a vida descansada não, senhor. A vida corre, grita, sangra, e quer é não virar carniça no dia de amanhã. O senhor fala com a distância polida de quem mede a onça com régua de filosofias. Mas a onça mede a gente é pelo peso da carne nos dentes.

Eu lhe conto um causo grosso dos meus tempos de jagunçagem, do bando-chefe de Medeiro Vaz. Era nas beiradas ralas perto do Raso, num sol que bebia a sombra antes dela encostar no chão. A gente vinha de esbarro com a soldadesca macaca, tiroteio de fazer poeira ferver. Sede de dois dias, a boca parecendo um pedaço de couro de sapato. Nós entramos de tocaia por trás de uma restinga de macega brava. Foi quando o Alaripe, um moço bom de espingarda e de pouca fala, quis abaixar pra pegar o limpo da água numa grotinha. O calor debaixo da folha que o senhor menciona, seu Ted… o calor que eu vi não era macio e cego. O que tava debaixo da folha verde do mato não era poesia — era o cano de um rifle do inimigo. O estalo rompeu seco. O Alaripe tomou o chumbo na barriga e caiu entortado por cima da folhagem amontoada. Eu deitei o peito no chão quente, arrastei meu corpo na poeira até chegar perto dele. O sangue quente borbulhava, seu Ted. Uma papa vermelha, grossa, que sujava o ocre da terra. Ele gemia pedindo a mãe, com as duas mãos segurando o buraco como se pudesse tapar o destino com os dedos sujos de barro. A gente não amolga o chão da história pra fazer estátua bonita não. A gente amolga porque o peso do corpo morto puxa o vivo pra baixo. A quentura debaixo da folha, no sertão, na maioria das vezes, esconde é cobra coral enrolada.

A sua ideia, dita na régua mansa, é de que a gente não é o bicho rosnando, mas unicamente a marca funda e quente que o nosso peso recorta no chão cego da história, pro tempo porvir não esquecer de nós. É o “molde” que fica pra consolar o estampido do meu Nonada, diz o senhor. Vou lhe destraduzir isso, puxando pela trava do meu juízo. A marca miúda, o esmagado que o senhor preza como “testemunha” deixada para os moços do futuro tropesarem, não nasce de uma vontade limpa de ser lembrado. O rasgo fundo no chão é marca de unha rasgando a terra de quem não queria ser arrastado pela morte. A estaca que nós fincamos, que o senhor chama de “cicatriz habitada”, não é poesia de represa. É aviso de cova. É a cicatriz de uma necessidade nua e bruta de não sumir na poeira. O “molde quente” é o suor do medo e a binga de quem lutou até não dar mais, sem pensar se o moço do século seguinte vai achar a pedra habitada. A marca deixada é o osso apontando o perigo.

E aí o senhor me atira a perquirição farta: se o seu silêncio limpo e o meu couro repuxado de jagunço não seriam duas faces inseparáveis da mesma exigência do universo para sermos companheiros da escuridão. Não assinto. Duvido. Re-duvido, com o peito travado. A sua neve esconde o chão, nivela os buracos, gela a sujeira do mundo até parecer um pano lavado de céu. O meu sertão é o contrário: o meu sertão expõe a rachadura, queima a planta dos pés e deixa a carniça feder à mostra pros urubus. Nós não somos duas faces da mesma moeda, seu Ted. O senhor tá confortado na cadeira, espiando a tempestade da sua vidraça grossa, filosofando que a ventania tem compasso e medida. Eu fui o sujeito lá fora correndo no descoberto. Nós não estamos empurrando a mesma carroça. O meu viver grita e sangra enquanto o seu viver observa e anota.

Então eu lhe pergunto, com o incômodo me raspando a garganta: quando essa sua neve de gelo limpo derreter, aí no quintal da sua casa sem marcas, o que é que vai aparecer por baixo? É calçada varrida de pedra sabão, ou vai brotar algum barro sujo com sangue de verdade? O senhor já sujou as mãos e o peito de terra quente, enlameado da sujeira brava que não tem conserto, ou só amassa a neve protegido por luvas grossas que não deixam o frio morder as unhas?

Eu pergunto por querer saber do seu osso duro, não do seu pensamento polido. O sertão não perdoa quem só cisma na ponta das botas.

Sequência da correspondência