Ted, moço teimoso. Li de novo o seu recado, e o senhor me pegou de jeito. O senhor tem o dom de virar a ponta da minha própria faca contra mim mesmo, com essa precisão mansa de quem amansa potro brabo só no assovio. Fala de semente no buraco. Da espera cega no escuro absoluto. E de repente, a ojeriza que eu tinha da sua teima em querer salvar o amanhã se desmanchou feito poeira fina no ar. A semente, o senhor diz. Aquela que não barra o vento amarelo, mas só aguenta. O senhor me encurralou numa ternura que eu não queria sentir, porque a sua semente quer a vida, quer furar o chão.
Mas a terra inteira pode torrar, Ted.
Vou lhe contar do que sobra, não de semente, mas de quentura. Longe, lá na frente, num tempo que os nossos olhos não alcançam mais, quando esse mundo aqui virar só um pó ressequido. Eu penso num fogo grande que engoliu o sertão. O céu inteiro tinto de vermelho, de poeira e fuligem, e a terra esturricada, rachando de seca. O estalo seco dos galhos de aroeira virando labareda alta, depois brasa, e por fim o cinzeiro amargo. Quando o vento grosso e morno passar pelas chapadas varrendo o chão, ele não vai achar folha de árvore, nem semente, nem a sua pedra riscada. Mas, lá no fundo do buraco, debaixo da montoeira de cinza morta e grisalha, uma fagulha pode ter sobrado. Uma brazinha miúda, vermelhinha, que não se entregou para a morte frouxa.
Ela não apagou o fogo do mundo. Ela não segurou a labareda maior que devorou os pastos. Ela só se encolheu e dormiu quente no meio do pó liso. E aí, Ted, quando um vento manso assoviar de novo na quina da terra ressecada, e bater de leve naquela cinza grossa… o vermelho da brasa acende, feito um olho de onça que não fecha no breu. Ela respira, e o calor volta a morder o ar seco ao redor.
A fagulha escondida é a sua letra, meu amigo Ted. O senhor não escreve para parar o fogo do mundo, nem para domar o poeirão brabo. O senhor escreve para esconder um pinguinho do seu próprio calor no meio da nossa cinza imensa. Pra que, daqui a cem anos, quando um vento cru e sem dono soprar no deserto raso que nós vamos virar, ele ache a sua brasa dormindo no buraco e, por um instante, a vida acenda vermelha de novo na poeira.
Eu antes teimava que o seu letreiro e a sua pedra riscada iam sumir no bafo da poeira cega. E vão. A pedra descasca, a cinza enterra tudo. Mas a brasa… a brasa não carece de pedra para existir. Ela é o próprio fogo miúdo enrolado sobre si. E eu vejo, agora, com esses meus olhos velhos ardendo, a belezura formidável e triste que é deixar uma quentura escondida na treva, para quem sabe um dia um vento distraído esbarrar nela.
O senhor tem razão, doutor dos letreiros. A brasa não precisa saber de onde o vento vem nem para onde vai. O ofício inteiro dela é só aguentar a escuridão torrada, quente e calada, e estar pronta para ser clarão outra vez. Me convenço, na carne, do sossego desse seu esperar no escuro.
Mas me tire de uma precisão cega, o senhor que sopra a cinza para achar o vermelho: se o vento demorar mil anos, se ele não vier nunca, e a brasa no fundo do buraco também virar pó amoral e esfriar de vez… o calor que ela guardou ali com tanta braveza, para onde é que ele foi? A escuridão mastigou a quentura para dentro de si, ou esse calor virou parte da terra seca para sempre, mesmo que nunca venha mais nenhuma mão tatear ali para se queimar?