O senhor finge que recua, me diz que o meu cotovelo bateu no osso da verdade e assume que o homem moribundo é apenas um bezerro ganindo no pasto em fogo, sem luz absoluta e sem fogueira de glória na cova rasa. Diz que larga a vaidade. Mas eu vejo: o seu sangue mole não o deixa firmar a bota na cinza quieta e fria. O senhor rasteja de volta pro mesmo lugar, mendigando debaixo da noite um fiapo que seja de consolo, me perguntando se, no momento do breu nos tragar, o ato de olharmos no olho um do outro, reconhecendo o terror puro, não é a comunhão que nos separa da fogueira cega e da pedra bruta.
Pois vou lhe dizer qual é a serventia desse olhar, Ted. Escute bem e me acompanhe na secura, se é de fôlego que o senhor quer atestar a vida. Lá no cerco brabo das pedras de São Gregório, a chumbada comia a gente de sol a sol. O bando do Hermógenes nos trancou num caldeirão de lajedo rachado, o calor cozinhando os miolos nossos por dentro da casca, a bala sibilando que nem mutuca furiosa. E ali tinha o Zé Mutuca. Um chumbo grosso rasgou o homem logo abaixo das costelas, abrindo na barriga dele um buraco escuro e banguelo. O sangue talhou grosso, colorindo de preto a poeira e o torrão. Eu me arrastei feito lagarto, peito no chão raspando nos pedregulhos, carabina cruzada nas costas, pra acampar perto dele e não deixar o cabra no sereno dos tiros.
Eu de um lado da cova rasa que a rocha fazia, ele do outro. O zunido quente costurando o ar por cima de nós. E ele me olhou. O senhor, na sua poética sentada na poltrona, chama esse olhar de “comunhão” na hora do fim, aquilo que destoa a nossa carne de ser igual ao chão e à pedra surda. Balela pura. A pedra lá, tomava bala e continuava pedra, calada e indiferente à ruína alheia. Eu olhei no fundo do olho do Zé Mutuca, e não vi laço de irmandade amparando a agonia dele no meu ombro. Vi apenas o espanto oco de um bicho varado, assombrado de que o corpo dele era o que estava esturricando, e não o meu. O olhar esbugalhado dele não aplacou a mordida da morte e muito menos o separou de ser o pó que já estava virando. O olho dele me atirava um berro mudo: “Por que as minhas tripas e não as suas, compadre?”. E no meu olho, seco e estatelado de volta pro dele, não morava o amor sagrado do abraço. No meu olho o que tinha era o alívio covarde do “ainda-nem-defunto” escudado no “quase-defunto”. O meu espelho devolvia: “Ainda bem que é no seu couro, Mutuca, que eu tô inteiro e eu não quero o breu hoje”.
Quando a gente testemunha o homem que divide a trincheira e o prato com a gente se retorcer fedendo a ferro e a sangue azedo no ar, a gente não tá construindo um monumento pra separar nós da fogueira cega. O companheiro só funciona ali, naquele olhar final que o senhor tanto romantiza, como um espelho escuro do estrago que nos aguarda. Não tem amparo ali, Ted. Só tem espanto solitário e multiplicado de duas bocas que tateiam ar sem encontrar ponte nenhuma. O desespero da agonia cruzada não resgata ninguém de ser igualzinho a poeira esfarelada.
O senhor escute: eu empunho meu rifle, e empunho sabendo que a cinza não guarda afago. O olhar do comparsa tombado não encheu minha caneca nem me desamarrou do pó. O que restava lá nas pedras de São Gregório era apenas um bicho estourado e outro bicho de sorte, os dois tremendo embaixo do sol bruto. A dor compartilhada ali só dobrou a assombração.
Se o senhor quer a verdade bruta da cinza, sem a cobertura da literatura fina, eu então lhe pergunto quebrando as costelas: o senhor tem coragem, meu senhor, de espiar lá no fundinho escuro do olho do companheiro estrebuchando e confessar — com a boca tremendo, mas confessar — que no último segundo do desespero rasgado, a única verdadeira união daquele olhar de morte não é o consolo fraterno, mas apenas o meu e o seu alívio secreto e raso de respirar por mais um minuto em cima de quem já calou o fôlego?