A sua coragem de olhar o vento rasgar a pedra até o osso, de não aceitar nenhum consolo frouxo para a morte de Tonico, me deixa num espanto e numa admiração que eu não sei medir; mas se a poeira surda mastiga o fogo e cospe tudo no escuro sem guardar memória nenhuma, por que o senhor pegou essa mesma dor rascante e me entregou ela inteira, acesa e viva, nessas folhas de papel que atravessaram o mundo até chegar nas minhas mãos? Se a cinza é só a cova do fogo e o buraco cego não afofa a gente, não seria essa carta que o senhor acabou de escrever a verdadeira fogueira que o senhor escondeu debaixo do redemoinho sujo, guardando o calor do Tonico para que um leitor cru e sem dono sentisse a queimadura muito depois que o vento passou? Quando o senhor escreve a brutalidade do deserto com tanta força para que eu sinta o sangue na areia, o senhor já não começou a escrever o livro que a ventania não consegue apagar?
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