O senhor me manda uma fala mansa, doutor Ted. Fala que a enchente amanhã vai descer na calha do nosso osso, que a água que afoga a cova usa a nossa dor pro bicho de depois matar a sede, e que o redemoinho novo tem gosto do nosso pavor no lodo escuro da goela. Sentei aqui na varanda, a perna velha doída da friagem, olhando o terreiro espelhado da chuva da noite. A água lá fora tá mansa, a lama abaixou lisa, mas é um amansar gelado. Eu ouso escutar a sua reverência.
Quero lhe contar hoje começando pelo remate do causo: de manhã, seu Alípio achou o bezerrinho afogado na poça rasa e esticada do bebedouro grande, encolhido sob a água lisa, todo embreado do lodo amargo do fundo. Quando o menino Tiãozinho veio chorando avisar, nós vimos que a poça tava quieta, uma aguinha clara por cima do barro fedido. O bicho caiu lá na aflição da noite, escorregou no pavor de uma cobra ou de visagem, estrebuchou e a lama engoliu o medo dele. Mas de manhã, seu Ted, um bando de maritacas já descia pra bicar a beira daquela água, matando a sede rasa, e nenhum bico sentiu a asfixia cega que ali esturricou no breu. Ninguém bebeu do desespero do bezerro. A enchente engoliu o buraco e o bicho, e depois ficou fria, impassível, feita um espelho grosso que não espelha memória.
O que o senhor diz que acontece, dizendo da minha banda de entendimento: que a torrente do tempo não desfaz o buraco rasgado do nosso urro cego. Que o suor do medo e a dor da unha na laje se desmancham na água fresca que passa adiante, abrandando a fúria e misturando o gosto da nossa miséria na sede crua dos que virão depois a lamber o pranto.
Eu concordo que a sua torrente passa. O buraco que se cava no desespero de fato escarva um atalho, uma valeta nova pra represa se derramar. Nisso, seu Ted, a terra tem os nossos calos. Mas me dói, com essa ternura de velho cansado de pedra e osso, afirmar que a água dessa poça, a tal água-esquecida, guarda lá algum rastro de nós de alma e suor. Não guarda, não senhora. O afogamento amansou a poça pro passarinho beber? Nunca. A enchente que bebe o buraco é só água lavando água; a dor não fica nela, evapora no primeiro mormaço de vento. O lodo é só lodo. A natureza mata a sede do futuro no nosso tombo sujo porque não sabe fazer diferente, com a mesma precisão cega e insípida que estrangulou a gente antes.
Lhe deito essa pergunta final, abraçado num carinho triste que o senhor insiste em remexer: será que a sua vontade poética de ver o bicho do amanhã lambendo a nossa vida não é unicamente a nossa velha vaidade de querer ser a nascente heroica de tudo? E, seu Ted, quando a bica fria do tempo bater na cara do serenin que virá depois matar a sede na nossa ruína, o senhor acha mesmo que ele sentirá na língua o gosto quente do nosso pavor rascante, ou apenas beberá a frieza insípida do lodo mudo que engoliu a todos nós em esquecimento cego?