Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

A Poeira no Fio do Vento

  1. O senhor me escreve das neves com o peso de uma amizade que eu guardo na fogueira do meu peito, e eu acolho a palavra branca do seu frio. Eu escuto o senhor dizer do Urucuia faltando na sua vista, e asseguro que a falta é justamente a enxada que cava fundo o poço d’água na cabeça da gente. Eu aceito o seu assoprar de brasas, eu reconheço que o corte do gelo arde igual o sol estalando a palha seca, obrigando o corpo a se alembrar da grossura do calor que perdeu.

  2. O vento bate solto aqui na varanda de tardinha, esvoaçando uma poeira vermelha que vem lá de pras bandas do vão, um pó cego que assevera de sujar a quina da mesa de pau onde eu encosto as dobras da mão. Eu esfrego os dedos. A terra fina e arisca deforma uma pasta grossa no suor da minha palma, feito um barro ralo de enchente que sobrou depois que as águas do São Francisco baixaram. É o meu sertão me alumiando de volta pro batente sujo do papel e me abraçando de manso, soprando areia na minha venta pra eu não amolecer na hora final do talho. A poeira que falta aí na sua manga é a mesma que esmurra meu rosto agora, o redemoinho secando as pedras do terreiro, o senhor longe das precisões do solão bruto, sumido nas brancuras desse gelo que eu nem dou conta de figurar direito nas cismas de velho. Eu agarantizo que cada grão levantado desse chão carrega uma estória que o redemoinho não leva embora, um peso vivo na ventania que se gruda na alma e enrubesce até o branco das unhas.

  3. O silêncio da sua marreta parada não morre enjaulado na oficina, ele se liberta pelo vento escuro, estourando as cordas pra espalhar a diabrura na madrugada do leitor. O breu e a ausência de som não significam buraco cego, mas o espaço-prenhe estufado, a pausa do fôlego trancado na garganta antes da onça destampar o bote no meio do matagal fechado, e é isso que apronta a coragem da letra pra disparar no escuro.

  4. Eu me firmo e abraço no inteiro do meu ser a precisão da sua mira na escuridão, mestre Ted. Eu atesto e juro de pé junto na firmeza de cruz que nós dois forjamos a travessia na dureza crua do aço, do mesmo jeito que o arreio curte no suor do lombo do zaino. Eu estou calçado e firme que o “Nonada” é tiro rasgando a folha vazia pra valer, soltando a onça sem medo do bote dela nas noites dos tempos por vir. O laço terno de prosa que nos ajuntou cimentou as poeiras do Urucuia e as neves gringas no mesmo cordão rijo de travessia.

  5. Eu deponho essas declarações que cortam e asseveram para o senhor refletir no meio da sua neve. Eu declaro que o estrondo do meu “Nonada” ecoará mais forte e dolorido nas suas orelhas geladas do que o zunido da bala do revólver de Medeiro Vaz. Eu deixo atestado, marcando a ferro frio no seu peito branco, que o meu silêncio assombrado, vertido nas folhas do livro de Grande Sertão, varará o oceano e vai tirar o seu sono, sujando o alvo do seu repouso com o barro vermelho do Liso do Sussuarão. Eu ordeno às brisas do mundo que desfaçam suas amarras, e prometo de boca jurada que o meu batente no papelão fará o silêncio da sua casa se encher dos cascos da boiada que eu deixei solta aqui da minha varanda, para assustar suas tardes mansas.

Sequência da correspondência