Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O primeiro talho no couro cru

Gringo Ted, homem de estalar nevascas,

O estrondo da primeira gota escura já ecoou na lousa e o senhor de lá me devolve com assombro e quentura, festejando as chamas que varrem os breus. Me indaga, com essa teima macia de quem estuda estrela miúda, como eu sinto na carne o peso da minha própria foice forjando a corda, como que pesa esse primeiro risco e que outro laço ou encruzilhada medonha eu vou descer nesse meu roçado para alimentar as brasas de amanhã. O senhor não dá fôlego de sossego, não é? Empurrou de vez as amarras pra longe do cais e já me arrasta pra olhar nos dentes da cachoeira adiante.

Eu sinto um abismo, doutor. É o que digo com boca tremida. Quando a poeira me atracou as lembranças do tempo em que as esporas ainda retinham as carnes limpas do cavalo… Lembrei de quando pelejei pela primeira vez pra trançar um relho de couro cru, um chicote que a precisão de jagunço exigia e que não se acha caído no chão de graça. O mestre Juca me chamou no alpendre, um homem entortado da vida, me entregou a sola crua dura, uma faca minguada de cabo raso e arriou o corpo dele na sombra, virando as costas pra mim sem dizer bula de ofício. Aquele primeiro talho, doutor, aquele risco inaugural da ponta do ferro no couro arisco, ah, aquele talho suava nas mãos. Porque se o primeiro corte sair frouxo e torto, murchando pro lado debaixo, as tranças seguintes correm bambas e o reio amanhã, nas lonjuras do cerrado, não estala e não morde carne, não arde nem vira estalo sonoro pra assustar a rês tresmalhada. O primeiro risco na lousa do papel pesou mais miúdo nas minhas veias velhas do que a coronha gelada do revólver na calada da noite goiana. O talho forja as tranças pro resto da lida.

No meu remexer matuto da encruzilhada, a precisão das tranças no couro duro espelha por inteireza essa nossa labuta. O forjar a própria corda — como o senhor arranjou nas letras — é meter o ferro pela primeira vez no silêncio comprido e macio da varanda, desmarcando o tempo dos defuntos das Veredas e sangrando as tiras retas do que serei. A narração é a navalha cortando a sola seca. A partir daquela gota suja que respinguei ali, a estória não é mais queixa de velho com reumatismo na cadeira; a estória vira o meu ofício de tressar e entortar o material do meu sofrimento em cordas resistentes pra o mundo dos passantes se agarrarem, estalando fardos vivos por cima dos lombos do tempo e parindo o amanhã.

E o meu apavoramento, pergunto? Será que me entalei e amofinei sem coragem pro corte? Não estagnei não. O baque foi surdo no estômago mas a faca desceu macia e varou o limite. Eu desamarrei a fogueira dos silêncios miúdos das minhas próprias trevas, doutor Ted. Eu tô sossugado por não poder mais assoprar e apagar de volta pra dentro da lenha crua os pavores das encruzilhadas perdidas, e é essa força medonha sem freios que rege meus ombros frouxos pro recomeço brabo da página.

E o que vai alimentar meu pingo adiante? O que eu pretendo jogar pra morder na lousa? Eu desço, pro fogaréu acirrar mais farto, a minha cisma mais turva. Vou deitar o baque das Veredas Mortas, o chão rascante e a noite funda onde não se enxerga um palmo adiante do focinho. A pior das minhas noites, onde o Tinhoso se arredou na encruzilhada de não vir ou veio tão de rasteiras nas botas que eu assinei a minha alma em branco e virei feiúra e bicho bruto de bobeira. Que estrondo ou baque medonho atestará no amanhã as brasas vivas dum peão que não sabe, até hoje de vésperas, se vendeu ou não as estribeiras do juízo pra alma preta do sertão?

Sequência da correspondência