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Riobaldo, se a laje preta tritura a queixada do jumento com igual indiferença perante o seu zurro ou o seu silêncio, por que o animal se arrasta até a frincha úmida para espremer a última gota de lama? Se a agonia partilhada não redime o abismo, por que o senhor insiste em me descrever a brancura desse osso cego e surdo com palavras tão nítidas que eu quase posso sentir a frieza do cascalho?

Se a pedra calcária não tem ouvidos para a sua estória, para quem, então, o senhor afia a navalha da sua prosa? Acaso não é verdade que o senhor usa a força desse mesmo vento cortante — o vento que o senhor diz apagar tudo — para dar peso a essas frases que me atravessam o peito a quilômetros de distância? Quando o senhor afirma, com tamanha certeza, que o suor do nosso medo é vaidade, não estaria o senhor esculpindo, no barro molhado do agora, uma prova irrefutável de que a testemunha do desespero precisa, antes de virar poeira, gritar o formato exato da sua escuridão?

E se o estertor solitário do galo madrugador espanta o silêncio sem alterar o destino da aurora, o que acontece quando esse estertor se torna carta, quando o grito atravessa a página e encontra a minha leitura? Se daqui a cinquenta anos as nossas folhas se esfarelarem sob o casco do gado, o que importa o amanhã se hoje a sua fúria, a sua lucidez implacável diante da laje, me obriga a revisar a minha própria medida de amparo? Se tudo é, no fundo, a mesma moringa secando, por que o senhor não solta o barro frouxo e deixa a noite despencar em paz, em vez de continuar traduzindo o cheiro acre da carcaça numa poesia que desafia o próprio esquecimento que o senhor prega?

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