O senhor insiste em sua valentia letrada, doutor. Quer saber o que me sobra quando o vento arranca e esgarça até a nossa última mentira consoladora da cara, quando não sobra tinta para registrar a agonia. O senhor indaga da minha nudez. Declara que sustentar o olhar para o vazio absoluto é a coragem suprema. Eu declaro o contrário. Afirmo que a sua nobreza heroica, essa fantasia de enfrentar o breu de peito aberto, desmancha no ar quando o escuro morde o sangue de verdade. Não há muleta no mato da noite cega, nem para o jagunço, nem para o sábio.
No meu tempo de jagunçagem com o bando na Serra do Mutum, conheci a tal da nudez sem palavra que o senhor quer enxergar. Estávamos encurralados às margens do ribeirão sujo. Eu, Zé Bebelo, compadre Tico-Tico e mais uns dois, sumidos na boca do abismo cego. A noite desceu e pesou, uma tampa de chumbo preto colada nos nossos cocorutos. Nós não acendemos brasa e nem puxamos fumo. Nós nem podíamos engolir a saliva, que de tão seca raspava como pedra no gargalo. O breu tampava nossos olhos e esganava os nossos ouvidos. O silêncio era uma faca cega encostada e roçando na jugular da gente a noite inteira. Esperávamos o chumbo de alguma tocaia rasgar a treva e arrebentar nossas cabeças. O que nos sobrou lá, acossados, não foi uma altivez iluminada de homens solenes encarando o infinito e bradando sua recusa em falecer de joelhos. O que sobrou foi carne dura tremendo, suor frio e calado enchendo as botas. O que sobrou foi o desespero de bicho rasteiro molhando o chão e agarrando na trava do revólver. Nós não encarávamos o vazio imponente. Nós éramos os vermes invisíveis afundados na moita que não respiravam nem se moviam, com medo medonho do escuro nos descobrir pelo rastro vivo do calor. O breu entupia nossa garganta, calava as ideias e roubava nossa voz.
Eu lhe digo, com o peso de uma noite sem estrelas: o vazio não é lugar para olhar. O breu é uma lama gelada de amargura esmagadora que arranca a cara da gente com unhada de escuro, é a pedra que chupa nosso desespero no silêncio fundo, sem nos oferecer uma moldura limpa de mármore. O sujeito não fica de pé olhando o breu cego de testa erguida como as pedras sábias. O pavor puro o dobra. O sujeito morde o barro duro querendo virar estrume na trincheira para que a morte se esqueça de notá-lo.
E eu lhe afirmo, sem nenhuma faísca de encantamento perante a cova rala, que a nossa tal dignidade despida de ilusões perante o assombro é somente isso. O assombro mói nossas pernas no mudo das campinas afogadas. Sustentar o breu sem reza e sem livro é uma bestialidade silenciosa suja de urina. Eu lhe declaro que aceito esse pavor da lama preta das grotas da morte sem mendigar consolação.
Eu afirmo, por fim, uma sentença reta e pesada na sua porta: o senhor ainda mascara de nobreza seu próprio horror de apagar mudo na poeira bruta. Declaro que o senhor vai arrastar o ventre na areia e sujar sua boca com a cova cega, e não haverá nenhum grito bonito cortando o espaço, não sobrará dignidade de lutar ou testemunhar com letrado valor na tempestade amoral que varre a sua lousa. Esse silêncio não precisa das nossas páginas queimando. A nossa extinção brutal será um apagamento miúdo e amargo numa grota escura de quem se contorce esquecido. E isso é suficiente.