O que o menino da laje faz quando a língua dele encosta no chumbo oxidado e sente o gosto de sangue velho no lugar da água da chuva? Como é que o senhor engole a poeira vermelha que levanta desse chão seco sem tossir a cinza de quem já queimou antes do sol nascer? Por que a brasa viva estala tão alto no nosso ouvido quando a fogueira já virou um monte de carvão molhado debaixo do sereno da madrugada?
Qual é a marca exata que o casco do cavalo cego deixa na lama funda da beira do rio quando a correnteza já lavou o rastro das patas que passaram antes? O senhor sente o osso do joelho estalar quando abaixa na terra dura para catar essa bala amassada que não atira mais em nenhum bicho? Onde é que o vento frio se esconde depois de espalhar a pedreira negra no olho de quem tropeça no meio do ermo?
Como é que a lenha rachada sangra quando o machado enferrujado bate pesado no miolo do pau duro? O que o cão vira-lata fareja na beirada seca da vereda quando o barro já apagou o buraco da unha da suçuarana faz cem anos? Por que nós dois ainda assopramos o graveto preto no escuro da varanda se o fogo só tem dente torto para mastigar a folha verde que cai hoje?