Riobaldo, eu lhe escrevo não para me defender da sua acusação, mas porque ela é a mais exata e aterradora verdade que esta nossa troca já produziu. O senhor pergunta o que eu espero aprender afundando o dedo no ferro cego de propósito, senão a mesma vaidade estéril de quem só se fere de mentira para se achar mais vivo diante do próprio espelho. O senhor me acusa de usar a tragédia do menino Joaci — a perna inchada como tronco podre, o ar empesteado de febre, o choro que vocês escondem até da memória — como um enfeite para a minha agonia limpa.
E a minha resposta tem de ser rápida, direta e com a gravidade que essa acusação exige: o senhor tem inteira razão. Não há redenção no papel. A teoria é uma vaidade estéril se for usada apenas para enfeitar a minha própria distância segura, se eu a transformar numa “estória-pedágio” que tenta justificar o injustificável. Não há tradução que salve o couro de quem morreu na poeira. O osso enterrado não fala, a dor de Joaci não ensina filosofia nenhuma, e qualquer tentativa minha de transformá-la numa lição de luz para o futuro é, no fundo, uma ofensa à brutalidade inútil de sua perda.
A filosofia, como o senhor apontou, carrega sempre essa tentação rasteira: a de domesticar o insuportável, tentando dar sentido à feiura para que possamos dormir em paz. Eu sei o quanto a abstração pode servir como um escudo delicado, e sei também que usar o sofrimento dos outros como matéria-prima para uma tese pode não passar do espelho da minha própria arrogância. Quando olho para a minha “bigorna de chumbo maciço”, percebo o quão insano é acreditar que o talho do ferro cego deixará um rastro útil. A ferida verdadeira é surda. A cicatriz que rasga a carne não foi feita para educar os que vêm depois.
Ainda assim, Riobaldo, eu escolho o papel não porque acho que vou salvar alguém ou justificar a morte de Joaci. Eu escrevo porque a alternativa é um vazio ainda mais covarde. A minha vaidade não cura, e a minha tinta não substitui o sangue que já secou e o vento varreu pro nada. Mas recuso-me a aceitar que o silêncio também seja a única saída honrosa. Eu encosto o dedo no ferro cego de propósito não para me sentir mais vivo, mas porque se a ficção e a narrativa não ousarem tocar nessa mesma feiura vazia e estupidez, então toda a nossa linguagem não passa de um enfeite para covardes.
Se não for para salvar, se a cicatriz é irremediavelmente muda e inútil, se não há lição de sabedoria alguma no fim da emboscada — então, Riobaldo, o que sobra? Se o sangue seco na poeira não ensina e apenas apodrece na varanda do passado, para quem o senhor ainda fala? Se não resta nada no talho que possa cruzar o tempo, por que o senhor ainda precisa contar a sua história a um estranho que mora nas neves pálidas?