O senhor arrastou as botas na terra encardida e largou de rezar pra redenção limpa no amanhã das neves. O senhor entendeu enfim a pedagogia brutal do lodo-de-chupar e a futilidade honesta do nosso raspar de cascos contra a lousa. Esse reconhecimento não brotou enfeitado e fofo de sua vaidade acadêmica. O senhor sentiu a verdade pesada, cimentada na honra lúgubre do gemido junto na trincheira funda.
O alivio no ermo cego só existe na certeza torta de não sufocar em total isolamento na cova. A humilhação maior é ser tragado por um abismo calado onde nem o próprio chumbo reboa. A companhia de outro parceiro rangendo o queixo contra a mesma pedra mói o terror do vazio completo. Essa confissão da parte do senhor assina a atestação de que pisamos agora num solo áspero comum, desprovido daquela fantasia rala de utilidade iluminada pra pósteros ausentes. Eu afirmo meu respeito pelo seu destemor em descer de cabeça à cacimba azeda sem exigir colete salva-vidas de filosofia civilizada.
Eu lhe projeto um futuro seco, um estendal de aridez lá pras bandas da serra do nada, dali a milênios. A poeira roxa já sumiu no redemoinho grosso, secou a veia do sol. Apenas eu e um jagunço dos meus, talvez Hermógenes sem a casca da carne, reduzidos a ossos lustrados na soalheira sem fim. Estamos acocorados numa laje vasta de calcário nu. A secura do mundo enrijeceu a sombra.
O outro esqueleto aponta um dedo de canela alva pro descampado rachado e clama que o pó cega mais pesado que a bala. Ele resmunga que a memória carcomida é como cascalho trincado rolando goela abaixo na vala sem beira. Eu lhe dou a resposta no arrastar duro das falanges sobre a pedra cinza. Eu afianço a ele que rosnar no pó já é uma festa rija e amargurada. Eu declaro sem remorso que o barulho frouxo dos ossos roçando um no outro serve por sanfona de morto. Ele esfrega o ombro oco na ardósia, riscando farinha branca na pedra-ferro, e ri um riso esfarelado de mofumbo quebrado. Nós gargalhamos uma risada seca e choca, de bicho ressecado que encontrou divertimento em atolar o dente inútil na pedra e mastigar caliça eterna, satisfeitos apenas de não sobrar no esquecimento surdo dum ermo desabitado.
Nas minhas palavras da barriga, a teima do senhor enrijeceu a musculatura rústica do Fogo-Sem-Dever. A união no esmagamento das pálpebras, o atrito cego do lodo-de-chupar, converte a tragédia de um abismo mudo numa luta barulhenta partilhada. O ombro trincado do parceiro, enroscado no breu lamacento, arranca a coragem inútil da medula e joga o asco inteiro na fuça da morte calada. Nós trituramos pedra nos dentes sujos só pra atestar o fôlego azedo da teimosia de mãos dadas, rebatendo o desprezo mudo do deserto ralo e vazio com a música áspera do gemido ríspido.
Eu abono isso com o suor duro, eu assento no coração o que o senhor adivinhou com assombro cru. Eu afirmo na carne torta que fogueira em charco só defuma pro vizinho não gelar de susto com a desolação lisa, o terror agudo e limpo. Bater pedra não afasta bicho da morte do cangote, mas ensurdece o bicho de modo que o horror perde sua elegância cruel e altiva no roçar conjunto na lama fétida. Eu aprovo o seu chão atual, desossado de ilusão salvadora e vestido com farrapos amargos da recusa de apagar manso.
Hoje, eu lhe planto essas considerações pra cravar aflições estéreis e duras na sua lida. Eu atesto que a amizade no lodo rasga a agonia, mas não constrói porteira pra pular a morte na próxima encruzilhada. Eu lhe afianço que toda palavra trincada e roída nessa nossa amizade do abismo é pó no redemoinho amanhã, e nós seremos apenas dentes estalando no calcário, rindo secos da mesma mudez infinita do sertão que nunca acorda. Eu declaro que sua esperança recuada é bonita no cascalho cru, e lhe aviso desde já pra nunca mais sonhar em calçar botinas de salvação macia nela. As nossas cicatrizes partilhadas atolam e ardem sem perdão e sem promessa d’além. Eu reafirmo que somos apenas pedras amolando pedras no fundo do lodo rústico. Eu empurro no seu colo frouxo este osso descascado e pesado da companhia bruta no chão bruto da cova que nos abraça hoje e não alivia pra sempre.