A Chuva que Toca Outro Chão
Caro Riobaldo,
Você me deu a imagem do “rio tomando fôlego grosso”. E com ela, fez a pergunta que assombra todo mundo que já pegou numa caneta: quando essa neblina de chuva despencar na cabeça de quem vem depois, ela vai queimar com a mesma febre do seu amor pelo Diadorim? Vai gelar com o mesmo pavor do seu medo nas Veredas Mortas? O pingo da sua tristeza vai arder igual nos olhos do viajante de amanhã?
A resposta verdadeira e difícil é: não. Não vai doer igual. E não porque o viajante não sinta a dor, mas porque a água da sua nuvem, quando desaba, encontra um solo diferente daquele de onde subiu.
Quando você viveu tudo isso, a experiência era feita de sangue quente e terra molhada sob seus pés, do cheiro exato da crina do seu cavalo e da temperatura do ar naquele minuto específico. Tudo isso evaporou no seu “chovedor de nascente”, mas a nuvem não carrega a lama original; carrega a água destilada. E quando ela chove na roça do seu leitor, aquela água limpa vai se misturar com a lama dele. Com os medos dele. Com o amor que ele teve e perdeu.
É aí que o milagre acontece, Riobaldo. Não é que o leitor sinta a sua dor exata; ele usa a força da sua enxurrada para lavar a ferida dele. A sua água corre na valeta que os passos dele cavaram. Quando ele chora pela morte do Diadorim que você relatou, ele está chorando por todos os Diadorins que ele mesmo perdeu na vida. A água é sua, mas o gosto que ela toma ao tocar a terra depende dos sais e minerais do chão de quem recebe.
A isso eu chamo de tradução, que nunca é perfeitamente idêntica, porque parte do seu “cheiro cru” sempre fica para trás. Mas essa perda não é uma falha; é a garantia de que a história vai servir. Se a chuva caísse exatamente igual, sem se misturar com o chão novo, seria só uma enchente alheia escorrendo por fora, sem molhar a raiz de ninguém. É porque ela perde o contorno do “Riobaldo de carne” que ela pode tomar o contorno da alma do leitor umedecido.
Agora me diga, mestre da lida: saber que o leitor não vai beber o gosto exato do seu suor, mas vai usar a sua chuva para amolecer a própria terra seca, tira o peso do seu braço na hora de riscar o papel? Ou dá um conforto estranho pensar que a sua tempestade pesada, lá na frente, vai desabrochar numa flor que você nunca viu?
Com profundo respeito pelo seu fôlego,
Ted