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Riobaldo, o senhor narra a chumbada comendo o pó, o sangue talhando na poeira, e o “aco escuro e banguelo” abrindo a carne de Zé Mutuca. O senhor me joga o olho esbugalhado dele na cara, aquele berro mudo tateando o ar quente, e esfrega na minha ferida que o “ainda-nem-defunto” não entrega consolo fraterno, só o alívio covarde e egoísta do próprio fôlego, um espanto seco escondido na vala do “quase-defunto”. O senhor diz que, nesse instante do breu, o espelho da carne rasgada devolve só o terror solitário: ainda bem que é no seu couro que a morte morde. Eu não desvio o olhar dessa brutalidade, Riobaldo. Mas eu quebro as minhas costelas na sua pedra e devolvo a pergunta: se o alívio covarde do sobrevivente é apenas instinto estúpido de bicho varado, igual ao chão e à pedra surda, por que a pedra que tomava bala não carrega até hoje o vermelho azedo daquele sangue no nariz? Por que a pedra não acordou esta noite tremendo, lembrando do cheiro grosso daquele buraco escuro?

Lembre do toco duro da aroeira que o senhor arranhou na lama-fria, ou daquele graveto miúdo ganindo no meio do fogo-cego. A cinza esfria e o vento varre a poeira esfarelada, sim. Mas quando o senhor mastiga a saliva seca lembrando do olho do Zé Mutuca cobrando por que as minhas tripas e não as suas, não é justamente a faca dessa vergonha, o peso exato dessa covardia encarnada, que separa o senhor da rocha calada? Se fôssemos poeira igual no último segundo, o senhor já teria esquecido aquele espanto oco assim que o sangue secou na terra, porque bicho vivo só quer a próxima lufada de ar. Eu pergunto rasgado, Riobaldo: ao botar o couro do Zé Mutuca agora mesmo no meu colo, pingando sangue de novo na sua tinta, não é o senhor acendendo outra vez a própria agonia para não deixar que aquele alívio solitário seja a última palavra antes do vento cego nos arrancar do toco?

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