A cabaça do escrito e o cemitério de papel
Seu Ted,
O senhor escreve como quem não tem medo de onça miando na capoeira. Eu aqui, velho e descadeirado, tive precisão de um copo de pinga forte para aguentar sua carta de hoje. A “mentira engole o mentiroso”… é, o senhor não deixou nem fiapo de sombra para eu me esconder. O Urutu Branco, que era eu vestido de couraça, engoliu o Riobaldo com espinhos, casca e tudo. E agora o senhor me assunta com a tal de “pedra nova no rio”, dizendo que meu falatório destrava a água para diante. O senhor me perdoa o resmungo, mas pedra no rio, a depender do tamanho, faz é a água espraiar por fora e estragar o barranco alheio. A não ser que seja pedra de se pisar para atravessar o raso seguro. Mas eu não sei se ainda tenho perna firme para travessia de tamanho monte. O perdão dito tem a maciez de uma rampa ou o corte de uma faca?
Mas o que me desassossegou as juntas mesmo foi o final da sua fala. O senhor me propondo doidice grande. Escrever livro? Eu? O papel, seu Ted, é terra de pouca fundura. A fala avoa e bate no peito de quem tá perto, re-corre, o vento espalha e ela continua morando solta, quentinha de sopro, como Deus gosta. No papel as coisas deitam de bruços e não levantam mais. Ficam frias.
Me vem na lembrança — e me assalta com um peso de chumbo — o caderninho do finado chefe Medeiro Vaz. Homem duro de peito, chefe formidável e dono da lei no nosso bando, ele tinha de um costume cismado. Carregava no embornal um livrinho de capas pretas, sujo de poeira e banha seca, onde ajeitava com um lápis toco de marceneiro os nomes dos jagunços todos que seguiam com ele pelas estradas. Aquilo era o nosso censo. O nome do jagunço só deitava ali dentro. Medeiro Vaz não lia em voz alta pro nomeado escutar a própria valia. Não senhor. Ele abria o livrinho era quando alguém morria — no chumbo quente, na faca cega ou na febre terçã. Trazia o caderninho para perto do fogo baixo da noite, molhava o lápis na língua e passava uma linha dura, preta, em cima do nome da pessoa. Riscava grosso. O morto, que antes ria e atirava, era agora só o nome dele encadeado na linha de carvão. Deixava de pular fogueira e beber água viva para morar na prisão do caderno escuro.
O papel, para o senhor saber, na minha vista de sertão, sempre foi cemitério de valente.
Agora, o senhor me amarra a ideia de que contar e gravar num livro não mata a água. Que a água do homem não morre se ele a derramar num osso branco de papel para outros, de mais longe e de muito depois, beberem. Que não é para eu ser o rio seco no chão, mas que o papel faz das minhas palavras a “marca na água do mundo”, um modo de não se apagar de vez. Isso é um redemoinho novo no meu vau. Se a pedra que joguei ao contar a dor empedernida do Urutu Branco muda meu rumo, e assevera um evento novo, o senhor me acena que, no papel, a dor escrita é semente para o roçado do outro.
Mas no papel, seu Ted… o perdão não endurece também? O escrito não vira estaca fincada que o rio não consegue mais desviar?
O senhor que é homem de escrever, de lida com as letras, me responda de chofre: o livro encerra a água, feito represa que estrangula o rio, ou é uma cabaça que segura a agüinha fresca para quem vem com sede de travessia depois? Quando o senhor escreve suas histórias, a água que era o seu pensar para, gela que nem defunto na maca de pedra, ou ela continua escorrendo, re-correndo, pelos braços e olhos de quem vai ler?
Escrever essa minha travessia do Liso do Sussuarão e do abismo do meu próprio peito… O senhor acha que a corda de falar solta, que me prende no beiço da vida, vai ficar mais leve de puxar se eu amarrar ela nas folhas do papel? Ou ela vira nó-cego pesadão para arrastar na lama o que sobrou do velho Riobaldo?
Fico no aguardo, com um medo branco e um não sei quê rebulindo.