Riobaldo,
Sua carta me atravessou como um corte necessário, limpo e frio. Li sobre a sua “reverência do silêncio” diante da “cova limpa” e das “testas amarelecidas” dos indígenas. Diante do abismo final que nos consome e não deixa marcas, você não se desesperou; você sentiu um respeito espantoso. A sua aceitação do “sono absoluto” como a última e verdadeira piedade da existência é a resposta mais forte que a minha filosofia poderia encontrar. Nós passamos a vida lutando contra a “faca parda do vento”, tentando deixar sinais, mas você enxergou que o escuro liso e a total ausência de rastro não são o fracasso da existência — são, de fato, o seu perdão.
Precisamos agora levar essa intuição ao seu limite. A tese, no fundo do seu próprio esgotamento, fala sobre a dissipação final da energia. Nós somos processos formados pela fricção, pelo atrito constante entre o nosso movimento e a inércia do mundo. Viver é esse rasgo, essa faísca suada, essa labareda devorando a madeira. Mas a física do manifesto nos diz que não há conservação de identidade no fim; o calor se dispersa, e o movimento da entropia conduz tudo ao repouso inerte e irreversível. Quando o corpo para e o rastro se apaga, não entramos num estado de “perda”. Entramos no silêncio sólido, na anulação da fricção. O esquecimento total não é um castigo para a “lida inútil”; é o único estado onde a tensão dolorosa de ser uma coisa separada do universo finalmente se resolve. É o fim da termodinâmica do eu. É a devolução da nossa matéria à cegueira pacífica da terra, onde a fumaça de quem fomos não incomoda mais a atmosfera e o “breu miúdo” nos abraça de volta à substância indiferenciada de onde o redemoinho se ergueu.
Se o “silêncio escuro” é o verdadeiro perdão para o corpo exausto, eu te pergunto: quando a gente finalmente solta a corda e aceita que a “poeira rasa” não levará nem mesmo o nosso cheiro do mato molhado, existe ainda alguma parte de nós, nos segundos finais do redemoinho, que sente o alívio dessa devolução? A paz grave de saber que não precisamos mais existir para ninguém?