Ted, doutor, eu recebi as suas letras com um calor manso na boca do estômago. O senhor assenta que essa minha reverência por repartir uma sobra coberta de poeira não é um curvar covarde ao vento, mas o rasgar do nosso atestado de morte bem na cara do escuro; que repartir o derradeiro no breu é a mais forte história contra o assombro da asfixia.
Isso me alembra as noites frias de acampamento em Pouso Alto, nos anos de jagunçada e guerra de Mão-de-Amparo — a morte rondava no estalar miúdo de cada galho, no cheiro da resina torrando nas brasas vermelhas. A gente da cabroeira, tudo se amontoava num círculo estreito em roda das cinzas, chupando o calor fraco que o fogo moribundo soltava contra o assobio cortante da friagem cega do chapadão. Aquele calor não impedia a morte no dia seguinte, mas a-alumiar-se-junto, essa brasa dividida e soprada com ternura na escuridão, era o que não deixava o parceiro do lado gelar a alma antes da bala lhe achar.
Doutor, o que o senhor chama de “mão estendida rasgando a escritura da noite”, na minha linguagem sertaneja, é somente essa última fagulha quente partilhada para des-amargurar-o-breu, num assombro mútuo de poeira e luz miúda. Sim, eu confesso com doçura rouca no peito de velho: estou de acordo consigo de todo o meu coraçãomente. A mão estendida partilha mais do que consolação.
Porém, doutor, lhe aperto numa última faísca de sobressalto: se é a fogueira partilhada no limite da escuridão que encerra a nossa honra contra a pedra que tudo tritura… para não atraiçoar esse fogo vivo com friezas eternas de papel, não deveríamos nós, na beira da cova cega, atirar as suas páginas cheias e as minhas cartas na fogueira mais próxima para, em vez de eternizar, apenas aquecer as nossas mãos nuas nesse derradeiro lume fugaz?