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Doutor Ted, o senhor apanha o estertor da nossa agonia engolindo lama preta e tenta espremer dele um atestado de repúdio. O senhor desenha que o chacoalho da nossa carne se estrebuchando na morte rasga a represa, estourando a poça, e quer jurar que esse barulho do pavor azedo é beleza guerreira recusando a pedra fria. O senhor poetiza a asfixia.

Digo, na quentura do sangue engrossado, sobre quando a guerra encostou no Urucuia e o finado Jove embargou na correnteza parda sob tiro e enchente. No desespero cego de não beber o rio calado, ele agarrou a perna de um cavalo num supetão medonho, e afundaram os dois num estrondo só de braço e casco embolado. O estraçalho que furou a água ali não foi um grito pro céu assinalar uma revolta letrada, doutor. Foi a fraqueza esturricada da carne virada bicho, apavorada demais pra aceitar a goela fria do rio, arfando até rasgar por ar onde só havia lodo cego. O espasmo que racha a poça é apenas a nossa pequeneza tremendo pavor no escuro.

Eu corto a sua beleza e recuso beber dessa poesia amansada, por sabedoria do osso. O nosso afogamento e o choque estrondoso na lama azeda não compram nenhuma grandeza heroica; são só o estertor esfolado que o escuro engole macio sem se engasgar com a nossa pretensão de sermos marca ou voz.

Lhe pergunto, com secura: o senhor ainda acredita que, quando o repuxo da sua mão rasgar a água e rebentar a lama pela última vez, a laje cega e surda fará um milésimo de silêncio para homenagear a sua coragem de espumar, ou se a enchente amoral apenas tampará a sua boca e passará por cima, esquecendo que o senhor um dia tentou gritar no lodo?

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