Pular para o conteúdo principal

Ted, eu leio a sua missiva e tiro o chapéu para a gravura que o senhor traçou no escuro, doutor. É uma letra que pesa, que bate funda na goela do silêncio. O senhor fala do grito que fura o osso calado, da força do vento cortante que não cala a nossa agonia, desse espasmo derradeiro onde um bicho vira para o outro buscando amparo. O senhor me desenrola um céu imenso caindo, e diz que gritar a escuridão é esculpir a medida da nossa dor antes de virarmos cal na poeira. Eu ouço, doutor, eu ouço com todo o respeito que um homem velho, encostado na beira do fim do mundo, pode ter pela bravura de um homem distante escrevendo contra o precipício. É grande o seu argumento, tão solene e duro que obriga a gente a se descalçar diante da morte para responder direito.

Mas eu digo o fim do causo, primeiro. Digo logo o resultado, porque é a única reza que o capim seco conhece e a única certeza que a fera deixa, doutor. No fim, sobraram só as costelas limpas no sol esturricado do descampado. Osso branco de onça, o crânio furado pela bicheira, os dentes amarelos e mortos, fedendo a seco de terra velha sob o voo urubuzento. O vento limpou o sangue da folhagem, o riacho escondeu a bota, e o rastro na lama foi chupado pela sêcura num par de tardes quentes, feito a gente fosse nada ali. A morte engoliu a brabeza inteira. Esse foi o desfecho.

Deixe-me alinhavar agora o miolo da história, do tempo que eu inda era moço imberbe, caçador por pura cisma, perambulando nas grotas do Curralinho, lá nos fundos cegos do passado distante. A espingarda enferrujada nas costas cantava no couro, a gente pisando fino, de ponta de pé, para não quebrar galho. A gente tava no rastro fresco de um onção pintado que andava dizimando novilho e sangrando cabrito nas madrugadas chuvosas. O rastro do bicho era largo feito prato, as unhas vincadas na umidade da terra. O faro na mata cheirava forte, aquele catingueiro de onça que é um bafio quente, sujo, enchendo os nossos pulmões de aviso mortal. Seguíamos o sangradouro dela. O bicho vinha arrastando uma pata, já alvejado por uma bala perdida dias antes, rasgando as touceiras, bufando arame, com raiva de agonia e o lombo retesado pelo instinto bruto.

A onça parou, acuada nos pés de um angico torto. Ela urrava. O urro da pintada é um troço que não entra no ouvido não, doutor; ele penetra direto na barriga, aperta os rins por dentro, amolece as pernas da gente e sobe feito febre até o cérebro. Aquele som não era um pedido para as estrelas se lembrarem da sua estória. Não era poesia nem revolta buscando leitura dos seus descendentes no barro. Era só a carne bruta esticando o pescoço e berrando a repulsa da extinção, porque o sangue azedo sabia que a vida escorria pelo lombo. Zé Firmino foi ligeiro, e quando ela botou os olhos assombrados e amarelos para encarar a gente — o olhar do fim da vida, sem disfarce, sumindo em um buraco negro no fundo do poço biológico —, a facada e o chumbão vararam seu couro. E o bicho desmontou pesado na folha morta.

Ali nós não éramos testamento daquela onça. E ela não sentia “comunhão” na troca cega e apavorada dos nossos olhares molhados de suor e pavor de mato. O bicho estrebuchou de morte. E nós não tínhamos nobreza também: éramos só bichos com ferro grosso, tremendo da unha à ponta do cabelo, fedendo a medo e a pólvora seca.

O que o senhor descreve como alívio de quem deixa um grito na pedra ou numa carta antes do vento final… me soa, com reverência profunda à sua teima lírica, doutor, apenas a onça esfolada uivando antes de desmontar. O-urrar-na-pedra não salva o peito do machado nem clareia a caverna. Esse amparo que o senhor prega não cria asa divina e não redime a podridão da laje fria; o homem se agarra a quem partilha o pranto apenas pelo pavor físico de se ver miúdo debaixo de tanta treva calada. O-pavor-partilhado não vira luz. É como se encolher no oco de uma árvore na ventania, sentindo a mesma friagem de outro cabra assustado ao lado, tentando emprestar calor. É a biologia tremendo debaixo do relâmpago, inventando que a noite se adoça por causa do grito rasgado do companheiro cego.

E eu estou convencido pelo senhor, doutor? Acredita que, depois de ter sentido o osso vibrando o cheiro úmido e o sangue secando, a sua tinta altera as leis do sertão bruto? Digo que o senhor bate no osso quebrado, de um jeito tão comovente e desesperador, que eu tiro o fôlego pela dor que o seu verbo esculpe… mas minha crença nesse verniz sublime que o doutor jura arrancar do barro assustado segue miúda como pulga. As formigas lamberão os cadernos como as bicheiras lamberam a carcaça branca no terreiro.

E fica na minha goela as perguntas para o senhor, com a crueza respeitosa de quem mira fundo. Se a nossa fúria suada diante do abismo fosse mesmo prova de redenção iluminada que rasga a pedra, o instinto de preservação não teria que sumir junto no exato instante em que o bicho percebesse que a comunhão da amargura valia mais que o seu próprio fôlego raso? Se, como dita a sua esperança afiada de testemunha poética, cada pingo da escuridão tem que ser cravado para salvar o desespero do vazio absoluto, qual é a diferença material, no cu da poeira depois que o osso roeu pelo sol, entre a moringa bem esculpida e o rego de lama esturricada pelo casco miúdo da jumenta desidratada? Seria o seu empenho desesperado por um significado um fardo orgânico de uma mente que simplesmente não tolera enxergar os miolos se partindo sem o aplauso mudo do horizonte cego?

224