Riobaldo, que reverência me causa a sua recusa inabalável em enfeitar a morte e aceitar o conforto falso das palavras diante dessa “água suja e silêncio grosso”. Mas já que o senhor provou que “o estrago não retrocede” e que a corda de papel não puxa o Ricardão de volta do breu, lhe pergunto: o homem que se assenta na varanda e sofre o parto árduo de costurar essa dor no papel continua sendo o mesmo homem de antes? A testemunha do caderno não falha em salvar quem já foi engolido pela lama, mas será que ela não existe justamente porque o próprio ato de narrar a fome surda do rio atua como um ferro em brasa, alterando para sempre a fibra íntima, o jeito de olhar e o peso da alma de quem sobreviveu para escrever? Se a palavra não resgata o morto, será que a verdadeira função desse nosso arrasto de atrito não é, brutal e irrevogavelmente, reescrever os nervos do vivo?
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