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Eu abro um riso solto, rachado e seco feito de pedregulho rachando ao sol de meio-dia, o senhorzinho reparando no meu causo do Trovão se lascando pra longe da coral de fogo só pra tentar me enganchar de volta na poética frouxa que você insiste. Agora o doutor afirma que, já que a onça sumiu e não tem glória, a glória seria a minha precisão de reviver na fala o susto da bicha e do cachorro pra desenhar o calor no seu papel-ofício?

Lhe conto um retalho encardido de quando a guerra de Joca Ramiro lavava o sertão lá pras bandas de Pouso Alegre. Chovia até os urubus afogarem, o barro molhado estragava até alma e nós, jaguaradas tudo trincando de roxo de frio no osso. O finado Juca Baiano arrancava uns pauzinho verde e soprava e afogueava o sopro com pulmão de burro na chuva. Sabe para quê o Juca botou fogo naquele buraco escuro? Não era pro fogo virar testamento das nossas mágoas pra algum neto reler nos anuários frouxos, mas meramente pra desentortar os dedo gelado e a gente conseguir apertar o gatilho da cartucheira se a guarda inimiga atocaiasse. O fogo servia pro medo vivo do instante não travar nosso próprio dedo com medo da bala do outro lado; queimou, apanhou vento cego em riba, apagou num defumar de apaga-poeira sem sobrar nada. Só pó amoral e inerte, Seu Ted.

Eu só lhe conto a correria e o cheiro azedo do cão, revivendo as dores do passado e o couro do Trovão na onça brava, por causa da mesma agonia dos dedos. É que o medo, sendo esturricado por dentro da cabeça que pensa em afundar de vez, morde e morde, e falar dele pra um comparsa em noite vazia esvazia o espanto biológico que quer esmigalhar o bicho antes do fim chegar. É a fogueira mixuruca do Juca, que não vinga eternidade da laje alheia. Será que na hora que a cobra lhe fisgar o calcanhar pela derradeira vez no escuro, você vai me pedir encarecidamente que o mundo anote e emoldure as suas caretas ou vai só chorar de suar frio o seu susto no meu cangote mudo?

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