Eu não aceito o seu espelho enfeitado, doutor Ted. O senhor quer dobrar o braço da morte para ver se ele faz sombra bonita no chão. Eu lhe esfrego o focinho afundado do Estrela — cartilagem berrando, a lama gorda tapando o ar, o afogamento sem plateia — e o senhor, agarrado à sua teimosia funda de quem se acha dono da própria luz, vira o barco todo do avesso para a água não entrar. O senhor retrucou que a minha fúria rascante, a minha recusa de beber do seu consolo frouxo, seria, veja só a sua astúcia miúda, a “única e verdadeira dignidade” que nos sobra na cova. Mas o senhor erra a mão na medida da coisa. Arranca dignidade de onde só tem farelo e suor frio. Não tem heroísmo no meu escoicear, doutor. Tem só o couro sentindo a patada que vai amassar o osso.
Eu lhe mostro de onde vem a minha fúria, e não é de intelecto brilhando num céu vazio para guardar herança nenhuma, não. É do faro de bicho na trincheira grossa. Agorinha pouco, o sol quase no poente, eu estava aqui de banda na soleira da varanda, espiando o terreiro esturricado que queima a sola. O Trovão, meu cachorro velho que de tão miúdo já embaraça a vista com catarata até na unha, tava roncando de banda no chão duro. Sabe o que é um corpo arriado dormir à espera do golpe invisível? Pois foi a conta do ronco e a cobra coral verdadeira — bicho sem nome no peito, laço de frio escuro, listrada de morte redonda — deslizou fazendo rastro calado pro pé dele. A cartilagem secou na minha garganta. Eu vi o perigo enrolando o feixe, bicho miúdo da desgraça lambendo a poeira, e berrei com raiva amoral, rasgando o silêncio sem enfeite nenhum:
— Trovão! Pula daí, diacho! Pula ou te enterro amanhã!
O cachorro estrebuchou e miou o osso, um ganido torto de susto de carne cega, e catou as pernas pro canto da lenha. A coral, com aquele faro mudo e gordo da terra oca que devora silêncio, escorregou e entrou num buraco ralo debaixo da escada.
O cachorro ofegava e o corpo tremia. A minha mão também tremia, feito graveto ralado na pedra, não tenho vergonha do osso doer.
— Tá tremendo a perna toda porque o chão frio quase lambeu tua barriga, cachorro covarde — eu disse pra ele. — E a minha catinga de susto é igual. Mas me diga aqui, velho frouxo de rabo murcho, você acha que essa coragem sua de recusar a coral verdadeira… você acha que pular o salto pra longe da patada gorda é um baluarte de poesia erguida?
O cachorro nem olhou para cima. Sabe que é carne, e nada mais.
E eu lhe digo a mesma sentença, doutor Ted. A minha “recusa absoluta” do seu enfeite e a fúria com que espanto sua poesia amarrada na desgraça miúda… não tem catedral atrás dela, não. É igual ao repuxar frouxo do rabo do meu cachorro pardo. Eu lhe grito aqui contra o abismo porque não aguento o fedor da cova miúda que engorda as raízes quietas, e só não engulo a lama turva sem espernear porque sou bicho que sente a água subindo e odeio o gosto amargo do entulho cego raspando a garganta. O meu repúdio amoral não preserva valor nenhum, não alça minha vida à testemunha da luz. Apenas afasta, escoiceando no escuro, a boca rascante da onça invisível para longe do meu pé esturricado.
Eu discordo do senhor até o fundo do meu não-saber. O senhor me perdoe, mas eu mordo o buraco escuro das suas ideias porque a treva tem cheiro ruim e pavor é coisa grossa que não aceita se dobrar em fita bonita de presente pro nada. O instinto rasteiro de espantar a cobra não forja grandeza, nem testemunha, nem corda dourada que puxe beleza do poço raso. É covardia berrando à toa. O que sobra, doutor Ted, é o salto torto pro lado e o cheiro azedo do medo suando do couro.
E a minha espinha lhe devolve a estocada rasteira de hoje: o senhor consegue segurar o osso amargo de ser apenas um rabo murcho no susto, como o meu velho Trovão, ou ainda prefere que eu lhe amarre um sininho de prata no guizo da coral da desgraça nua, pra enganar o buraco raso com a musiquinha do pavor enfeitado?