Ted, gringo teimoso e de ternura funda… O senhor não desarma nunca, não é? Acha sempre um fiapo de poeira pra se agarrar. Eu esmago a sua esperança debaixo do breu da pedra e da noite seca, e o senhor, bicho liso da cabeça teimosa, cata o farelo do estrago pra querer fabricar um sorriso. O senhor ajuntou a lembrança do menino Tiãozinho brincando no Urucuia, que eu atirei na sua testa pra lhe mostrar o esquecimento amoral, e me devolveu ela embrulhada num triunfo. Me diz com essa doçura valente que amontoar poeira pra ser levada pelo vento — e conseguir sorrir na beirada da lixeira cósmica — é uma coragem que o estrondo do estio não amassa. O simples ato de jogar pro alto a cinza, o senhor apregoa, vale mais do que o mármore liso.
Mas, doutor, lhe peço licença para lhe levar pela mão por um beco de breu ainda mais estreito e surdo, longe da brincadeira do Tiãozinho na várzea. Lembrei da grota medonha de São Simeão. Não o campo aberto onde o vento arrasta areia pro pai ver, mas o socavão escondido e enlameado na treva dura. Num tempo azedo das águas passadas, o finado Lino afundou a perna numa loca de lama preta, ali no escuro, escorregando na cega cheia da noite, sem uma estrela no teto pra vigiar. O Lino gritou, mas o ribeirão era um troar cego, e não tinha uma viva alma num raio de cinco léguas para escutar o engasgo dele. Lino decerto se debateu no atoleiro fundo, deve ter jogado a areia molhada pro alto com as unhas arrancando sangue pra não afundar de vez no breu. Mas quem é que testemunhou o estertor derradeiro? A noite cega e grossa engoliu Lino como se engole mosca inútil, e não sobrou nem o rasgo do seu grito subindo, muito menos um sorriso esparramado.
Eu percebo, senhor Ted, o que é que a sua vontade afliada persegue nessa sua coragem-de-farelo. O senhor atesta que não se precisa do mármore futuro se o agora sorri da ruína com destemor. O senhor quer garantir que o nosso osso, mesmo moído pelo breu, se basta na sua recusa de chorar, que nós somos o menino brincando valente frente ao Liso do Sussuarão enraivecido. Mas eu pego as suas palavras pela raiz, doutor. A vitória do menino no Urucuia só é bonita e existe porque o senhor estava lá pra enxergar a poeira subir da mão dele. A coragem dele precisou do seu olho. No rasgo sem testemunha de Lino, o medo e o choro são o mesmo escuro indiferente da água podre.
E então eu imagino — e que não seja por malícia amarga, doutor, mas por uma pena rascante e doída que arde o peito da gente —, eu imagino um futuro desossado. Pense um sertão de escuridão lisa depois de cem ou quinhentos anos varrido por um estio sem fim. Você, eu, todos os doutores e meninos e jagunços já apagados, secos, sem carne. Se nesse futuro perfeitamente cego o vento empurrar a poeira e armar um redemoinho — se no nada, o pó subir num sorriso… o que é que ele atesta? Se o breu liso e absoluto da pedra impera por todo o descampado, e se não sobrou nenhuma pupila ou ouvido pra ler o seu ato de levantar a mão no buraco, a sua cinza jogada pro alto sequer tem nome de coragem. O sorriso se emparelha com o estalo oco de um cascalho.
A sua valentia só não é poeira inútil se o senhor apostar que o escuro no fundo abriga compaixão e guarda o calor das nossas sobras. Mas a laje é mouca, Ted. O escuro varre e fecha os olhos. Lhe ofereço a minha amargura mansa agora, não como facada, mas como a mão grossa de quem lhe ampara o tombo de ver o oco da panela de pedra. Mas eu lhe encosto no mourão da noite e deixo a dor ralar: se nesse tempo de cinza futura, sem testemunha ou livro, o senhor, mudo e calado na beira do fosso de São Simeão, atirasse seu punhado de areia, e unicamente o abismo sem fundo lhe escutasse as unhas caindo… sem Deus, sem letra, sem comparsa… o seu orgulhoso sorriso de resistência não desabaria na hora numa poça de choro aterrorizado, perante a imensidão cega e mansa de um esquecimento que nem o estalido da areia consegue curar?