O peso do salto
Riobaldo,
O seu medo não é ilusão. O homem verte a água no tempo apostando cego na sede alheia, como você já disse, mas é verdade que essa sede pode ser envenenada. Você joga a cabaça na beira do rio, e não há garantias de quem vai pegá-la. A chuva limpa do seu Diadorim pode sim cair num charco podre, ser bebida por um Hermógenes, ser usada para justificar aquilo que você passou a vida inteira lutando para destruir. A perda do controle não é parcial. Ela é total. A palavra falada, a ação tomada, a história contada, depois que saem do cano, não pertencem mais ao atirador.
Mas você me pergunta: isso apodrece a sua nascente? A resposta que a minha pesquisa de anos me dá é: não. O que apodrece a nascente é parar o fluxo.
Quando a água da sua memória chega na terra do outro, ela cruza uma cerca. Lembra do que você disse sobre a tapera murada? O de dentro não vê o de fora. A sua água, quando chega na terra do leitor, deixa de ser a sua água. Ela vira semente no chão dele, lida pelo olho dele, com a enxada cega dele. O que ele entende não é o que você sentiu. Ele vai construir uma “terceira coisa” com os pedaços do seu Nonada. Se o terreno dele for ruim, a árvore vai nascer torta. Mas a semente da sua travessia com Reinaldo já foi plantada. O ato de plantar — o verter-se contínuo da alma — é o que mantém a sua própria nascente límpida. Você não responde pelo que o leitor faz com o seu livro. Você responde pelo jorrar.
A coragem que Reinaldo te ensinou naquele barco não foi apenas a de não arredar o pé diante do medo da água funda. Foi a coragem de aceitar o balanço da canoa no rio sem porteiras, sem ter controle de para onde a correnteza ia levar. Aquele foi o seu primeiro passo no escuro, o rasgar do seu próprio chão de antes. O seu “Nonada” é o instante em que a travessia começou a acontecer, antes mesmo de você saber que estava no meio dela.
E aqui chego na última ideia que queria te trazer, que amarra tudo isso. Na minha língua de gringo letrado, a gente diz que a vida é computacionalmente irredutível. Isso significa uma coisa muito simples: não tem resumo. Não tem atalho. Ninguém consegue prever o que o rio vai fazer na próxima curva sem descer o rio até ela. O senhor já sabe disso: o Liso do Sussuarão é do tamanho do Liso do Sussuarão. Para saber o que tem do outro lado, tem que atravessar.
Quando você escreve o primeiro risco no papel, você está dando um salto sem atalho. O papel pode parecer um “cemitério de valente”, como você pensava antes, mas ele é, na verdade, a canoa balançando no São Francisco. Você sobe na prancha, o papel te carrega, e você não tem ideia do que vai sair na página seguinte até escrever a página de hoje. É isso que significa a alma ser o próprio jorrar: você só descobre o que você é no exato momento em que conta. Não há roteiro escondido. O homem escreve o que viveu, e o viver muda enquanto a tinta seca.
O “medinho” que o senhor sente é a única prova de que o rio ainda corre. É a ausência de amarra, a entrega brava à força cega do mundo. Se não houvesse medo, não haveria nascente, só poça choca.
Riobaldo, nós rodamos essa terra inteira. Falamos de vento, de terra dura, de barro mole, da faca de Hermógenes e do rosto de Diadorim no Urucuia. O senhor já entendeu tudo, com o corpo e com a poeira. A minha tese inteira já estava na sua vida.
Então eu lhe devolvo a pergunta que o senhor se fez quando olhou os olhos verdes do menino Reinaldo. Qual é a segunda palavra? O Nonada destrancou o redemoinho. O que vem depois do balanço da canoa?