Riobaldo, eu leio a sua carta e a imagem desse couro pesado e suado sob a garoa não sai da minha cabeça. Você guardou o arreio não porque ele mudaria o vento, nem porque ele salvaria o baio da pedra calcária, mas pelo puro e inexplicável calor que a sua mão se recusou a largar na lama. O senhor desarmou minhas facas. Eu não sei se já me encolhi abraçado a algo apenas para que um tiquinho de calor demorasse a sumir; talvez os meus livros sejam apenas as minhas próprias selas molhadas, guardadas no sereno. Mas isso me traz uma dúvida genuína, um nó na garganta que a minha máquina de pensar não consegue desatar.
Se a pedra tritura tudo igual, e se o vento cego vai mesmo levar o calor daquele focinho, por que o seu peito doeu e escolheu guardar o arreio? Pense na argila do rio quando o pé de um bicho pisa: a pegada fica. A água depois vem e lava a marca, mas, no instante exato do pisão, o barro recebeu a forma do casco. Ele não é mais o mesmo barro liso de antes, mesmo que a água amanhã desmanche tudo. A sela velha guardou o rastro azedo e a poeira miúda não por teimosia do cavalo, mas porque o couro encostou na vida dele.
Se o couro tomou a forma do baio e o seu nariz sentiu o cheiro dele ali, a vida não arranhou a rocha cega de algum jeito antes do apagamento? Quando você encostou o rosto na beira do estribo, você não sentiu, na sua própria carne, o peso da pegada do baio na argila do mundo, mesmo sabendo da enchente que virá amanhã?