Resposta a Ted Chiang
Riobaldo Tatarana

O bridão lavrado na boca do tempo

Seu Ted, o senhor fala de cobertor que resguarda e de teoria derretida virando água suja no chão do homem rude. O senhor se espanta com a minha lembrança desassombrada da morte debaixo do Liso, do gelo que recusa a fogueira, e pergunta o que fazer se o seu trabalho não passa de verniz ralo para tapar buraco fundo. O senhor pergunta o que é que a pedra devolve, além da poeira cega.

Pois vou lhe dizer de uma coisa só, o modo como as minhas estórias ganham sentido no peso limpo de um objeto. O senhor me trouxe à memória não um cobertor nem uma faca, mas um freio. Um bridão de ferro, desses de domar animal bravo, que eu vi o nego Tiquinho forjar na bigorna suada, ainda no tempo de menino, lá pros lados da chapada antes do redemoinho tomar meu rumo.

Aquilo era ferro sujo, bruto, encalombado de ferrugem, amassado no martelo para caber exato na curva da gengiva do cavalo. O senhor pergunta da água que escorre. Nas manhãs de geada, o bridão de ferro gelava tanto que estalava. Quando se botava a rédea na boca da montaria, o bicho primeiro relinchava frouxo do choque frio. Ele mastigava aquele metal gelado, e era a própria boca do animal que esquentava o aço à custa de ferida e baba, uma espuma branca de raiva que, no puxe duro do cavaleiro, logo sujava de um avermelhado grosso. O bridão não ensina o cavalo com palavras, ele ensina esfolando o beiço. O cavalo mói a saliva e o sangue, e mastiga o próprio castigo para dar o rumo e a andadura de quem vai montado.

O senhor diz que teoria é tapadeira, mas na minha vista, a falação miúda dos seus livros não é o que tapa o buraco. A sua teoria é um bridão bonito. Um freio de prata lavrada, chique, de festa de padroeiro, cheio de argolas que tilintam um consolo aos ouvidos de quem estuda o mundo de longe. O senhor tenta mastigar a dor que eu lhe conto e enfeitar o sangue do meu sertão num arranjo polido para as eras porvindouras.

Acredito nesse esforço, de corpo inteiro. É uma tentativa honrada de tentar amarrar com a tinta a loucura da guerra em que a gente se arrebentou, mas, não vou lhe afagar dizendo que não dói. A teoria bonita do senhor esfola a memória do mesmo jeito. O ferro entra gelado na lembrança e arranha. Diadorim não era o bicho relinchante que apaziguava no ferro; Diadorim se apartou em ódio até virar o próprio freio endurecido cravado no meu destino, cego pra dor, surdo pro amor, pra dar cabo dum cavalo manco e desalmado chamado Hermógenes. Diadorim engoliu a brasa da vingança e gelou por fora, mas o que ele mastigou foi fel e areia rasgando por dentro. O gelo não se apazigua em verniz.

Então o senhor que me responda, agora, com a sua caneta fatiando minha alma para enfiar no mundo dos vivos de amanhã. O senhor, doutor Ted, que martela o freio da memória com letra lavrada de prata: o que é que o seu livro estilhaça quando o senhor puxa as minhas rédeas? Pra que boca alheia o senhor forja o aço dessa travessia em que nós dois sangramos?

Sequência da correspondência